domingo, 9 de novembro de 2025

A Glória de Deus

    A Bíblia frequentemente cita a Glória de Deus, e por vezes difunde seu significado em algumas analogias. Mas é possível unificá-las, pois todas remetem ao esplendor do próprio Deus, como o Livro do Profeta Ezequiel descreveu: "Acima dessa abóbada, havia uma espécie de trono, semelhante a uma pedra de safira, e bem no alto dessa espécie de trono, uma Humana Silhueta. Vi que Ela possuía um vermelho fulgor, como se houvesse sido banhada no fogo, desde o que parecia ser Sua cintura, para cima, enquanto que, para baixo, vi algo como fogo que esparzia clarões por todos lados. Como o arco-íris que aparece nas nuvens em dias de chuva, assim era o resplendor que a envolvia. Era esta visão a imagem da Glória do Senhor." Ez 1,26-28

   Apresentar Sua imagem, ao invés de Sua real aparência, é uma necessária deflexão por nossa impossibilidade de contemplar, durante a vida terrena, a face de Deus na plenitude de Sua Glória. É o que atesta o Livro de Êxodo: "Moisés disse: 'Mostrai-me Vossa Glória.' E Deus respondeu: 'Vou fazer passar diante de ti todo Meu esplendor, e pronunciarei diante de ti o Nome de Javé. Dou Minha Graça a quem quero, e uso de Misericórdia com quem Me apraz. Mas,' ajuntou o Senhor, 'não poderás ver Minha face, pois o homem não poderia ver-Me e continuar a viver. Eis um lugar perto de Mim,' disse o Senhor; 'tu estarás sobre a rocha. Quando Minha Glória passar, pô-te-ei na fenda da rocha e cobri-te-ei com a mão até que Eu tenha passado. Depois retirarei a mão e vê-Me-ás por detrás. Quanto a Minha face, ela não pode ser vista.'" Êx 33,18-23

    No Evangelho Segundo São João, após multiplicar pães e peixes e oferecer Seu Corpo e Seu Sangue como o Pão do Céu, Jesus confirmou estas visões como deflexões, dizendo de Si mesmo: "Não que alguém tenha visto o Pai, pois só Aquele que vem de Deus, Esse é que viu o Pai." Jo 6,46

    No entanto, pela manifestação do Salvador e a retirada do véu (cf. Hb 10,20), sabemos que Cristo é a própria Glória de Deus, como os seguidores da tradição de São Paulo apontaram na Carta aos Hebreus: "Esplendor de Sua Glória e imagem de Seu ser..." Hb 1,3

    Também o disse São João Apóstolo, ao referir-se à Encarnação de Cristo: "E o Verbo fez-Se Carne e habitou entre nós. E vimos Sua Glória, a Glória que o Filho Único recebe de Seu Pai, cheio de Graça e de Verdade." Jo 1,14

    Os milagres que Jesus realizou, por conseguinte, igualmente eram inefáveis sinais de Sua Onipotência, como quando transformou água em vinho nas Bodas de Caná. E aí se tem um segundo tipo de deflexão do que é a Glória de Deus: "Este foi o primeiro milagre de Jesus. Realizou-o em Caná de Galileia. Manifestou Sua Glória, e Seus discípulos creram n'Ele." Jo 2,11

    Sua Transfiguração, enfim, foi um momento em que o esplendor dos Céus refulgiu nas pessoas de dois insignes Profetas de Israel, ainda que não tenha sido em sua totalidade. É do Evangelho Segundo São Lucas: "E eis que falavam com Ele dois personagens: eram Moisés e Elias, que apareceram envoltos em Glória, e falavam da Morte d'Ele, que havia de cumprir-se em Jerusalém." Lc 9,30-31

    E por essa vitoriosa passagem para a Vida EternaJesus rezou ao Pai ainda no cenáculo, na noite em que seria entregue: "Pois agora, Pai, glorifica-Me junto a Ti, concedendo-Me a Glória que tive junto a Ti antes que o mundo fosse criado." Jo 17,5

    Contudo, em terceiro tipo de deflexão, não é difícil perceber que toda Criação é pura manifestação da Glória de Deus. no Livro do Profeta Isaías, os serafins rezavam diante da Santíssima Trindade: "Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos. Sua Glória enche toda Terra!" Is 6,3b

    Por fim, o Sacrifício Pascal, o paradoxo do Deus morto, é a marca maior da Vitória e da Glória de Cristo, em um quarto tipo de deflexão, quando às últimas consequências levou Seu amor por nós. Depois do Domingo de Ramos, ao ser procurado em Jerusalém por judeus nascidos fora de Israel, Ele disse: "É chegada a hora para o Filho do Homem ser glorificado." Jo 12,23