segunda-feira, 19 de outubro de 2026

O Purgatório

 

    Referindo-Se ao Juízo Particular e ao Juízo Final, Jesus deixa claro que há duas possibilidades de perdão, afirmando que certos pecados, sem o necessário Arrependimento, que Ele mesmo instituiria como nosso Sacramento da Confissão (cf. Jo 20,23), não terão perdão automático pela Divina Misericórdia, pois até admite que Sua Encarnação não seja compreendida, mas a ação do Santo Paráclito, não. O Evangelho Segundo São Mateus registrou: "Todo aquele que tiver falado contra o Filho do Homem será perdoado. Se, porém, falar contra o Espírito Santo, não alcançará perdão nem neste nem no vindouro século." Mt 12,32

    E claramente apontou que há maiores e menores punições, que só podem acontecer no Purgatório, pois no Céu não haverá punição alguma, e, no inferno a punição será total, sem meio termo. No Purgatório, sim, conforme a gravidade dos pecados haverá as correspondentes e expiatórias punições, ou seja, as intermediárias punições. É do Evangelho Segundo São Lucas: "Aquele servo que conheceu a vontade de Seu Senhor, mas não se preparou e não agiu conforme Sua vontade, será açoitado muitas vezes. Todavia, aquele que não a conheceu e tiver feito coisas dignas de chicotadas, será açoitado poucas vezes. Àquele a quem muito se deu, muito será pedido, e a quem muito se houver confiado, mais será reclamado." Lc 12,47-48

    O Livro de Apocalipse de São João também explica a diferença entre os Santos, que já ressuscitaram e nos Céus estão reinando com Ele (cf. Ap 20,4), e aqueles que ainda estão purificando-se. O termo 'mil anos' significa um perfeito, completo período, o tempo para a total purificação da alma: "Os outros mortos não tornaram à vida até que se completassem os mil anos. Esta é a Primeira Ressurreição. Feliz e Santo é aquele que toma parte na Primeira Ressurreição!" Ap 20,5-6a

    Afirmativamente, havia mais de dois séculos que o Purgatório era uma cogitação teológica recorrente entre o povo judeu, como vemos no Segundo Livro de Macabeus. Diz de Judas Macabeus, o líder judeu que pôs fim a dominação dos gregos em Israel: "Mas se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda aqueles que piedosamente morrem, esse era um bom e religioso pensamento. Eis porque ele pediu um expiatório sacrifício: para que os mortos fossem livres de suas faltas." 2 Mc 12,45-46

    Mas há muito, desde o Livro de Deuteronômio, temos outra sentença de Deus, proferida depois do anúncio do Advento do Salvador, que indica até onde vai Seu fogo purificador. Eis o Purgatório: "O fogo de Minha ira está a arder, e vai queimar até à mansão dos mortos..." Dt 32,22

    E conforme a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, aqueles que, mesmo tendo conduzido suas vidas segundo a Doutrina de Nosso Senhor, não alcançarem a imediata Redenção, serão purificados por um fogo devorador: "Agora, se alguém edifica sobre este fundamento (Cristo), com ouro, ou com prata, ou com preciosas pedras, com madeira, ou com feno, ou com palha, a obra de cada um aparecerá. O Dia do Juízo demonstrá-lo-á. Será descoberto pelo fogo. O fogo provará o que vale o trabalho de cada um. Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensa. Se pegar fogo, arcará com os danos. Ele será salvo, porém de alguma maneira passando através do fogo." 1 Cor 3,12-16

    A Primeira Carta de São Pedro também afirma que nossa boa obra passa por uma prova, e compara-a ao fogo: "É isto que constitui vossa alegria, apesar das passageiras aflições que por diversas provações ainda vos são causadas, para que a prova a que vossa fé é submetida, mais preciosa que o perecível ouro, o qual não deixamos de provar ao fogo, redunde para vosso louvor, vossa honra e vossa Gloria quando Jesus Cristo Se manifestar." 1 Pd 1,6-7

    Ora, ao falar do imorredouro 'verme' do pecado, contra o qual Nosso Salvador exige radicais mudanças, Ele mesmo havia dito do processo da Salvação, aqui na Terra ou no Purgatório. Está no Evangelho Segundo São Marcos: "Porque todo homem será salgado pelo fogo." Mc 9,46

    E como deve ser bastante óbvio, não se pode chegar aos Céus sem uma completa purificação da alma. Foi o que os seguidores da tradição de São Paulo apontaram, ao falar do necessário processo de santificação na Carta aos Hebreus: "Procurai a Paz com todos e ao mesmo tempo a santidade, sem a qual ninguém pode ver o Senhor." Hb 12,14