segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Todos os Finados

    No Evangelho Segundo São Lucas, depois do Domingo de Ramos e respondendo em Jerusalém a uma provocação dos saduceus, que não acreditavam na Ressurreição dos Mortos, Jesus disse: "Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos. Porque para Ele todos vivem." Lc 20,38

    Com efeito, a alma é imortal, como Ele deu a entender no Evangelho Segundo São Mateus, dizendo que os condenados irão ao definitivo inferno depois da Ressurreição da Carne, ou seja, em corpo e alma (cf. Jo 5,29): "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes temei Àquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena." Mt 10,28

    E àqueles que guardam Sua Palavra e a fé, Ele garantiu no Evangelho Segundo São João, por ocasião de uma festa na Cidade Santa, que sem sobressaltos passariam dessa vida para a eternidade: "... quem ouve Minha Palavra e crê n'Aquele que Me enviou, tem a Vida Eterna e não incorre na condenação, mas passou da morte para a Vida." Jo 5,24

    Mesmo os mortos, portanto, se em Si crerem, lá onde estiverem viverão, pois Ele é a própria Ressurreição, o poder de dar a Vida, como afirmou instantes antes de ressuscitar São Lázaro: "Eu sou a Ressurreição e a Vida. Aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá." Jo 11,25

    A imortalidade da alma, e assim a Vida Eterna, já eram contempladas no Antigo Testamento, como vemos no Livro de Sabedoria: "Mas as almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará. Aparentemente estão mortos, aos olhos dos insensatos. Seu desenlace é julgado como uma desgraça, e sua morte, como uma destruição, quando na Verdade estão na Paz! Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, sua esperança era portadora de imortalidade, e por terem sofrido um pouco, receberão grandes bens, porque Deus, que os provou, os achou dignos de Si. Ele provou-os como ouro na fornalha, e acolheu-os como holocausto." Sb 3,1-6

    Pois a verdadeira morte é a eterna condenação, o que não ocorrerá àqueles que obedecem a Deus, como Jesus assegurou nas revelações do Livro de Apocalipse de São João. E aí, dirigindo-Se a uma diocese, Ele pede, e repete a outras seis dioceses, que os fiéis ouçam seus Padres em suas paróquias, pelas quais o Divino Paráclito nos fala (cf. Ap 2,7.17.29;3,6.13.22): "Ao anjo da igreja de Esmirna, escreve: 'Eis o que o Primeiro e o Último diz, que foi morto e retomou a Vida. Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: 'O vencedor não sofrerá dano algum da segunda morte.'" Ap 2,8.11

    De fato, a segunda morte, ou a geena de que Nosso Senhor fala, é o definitivo inferno, onde a ausência de Deus se fará sentir (cf. 2 Ts 1,9), o que se depreende das últimas revelações ao Amado Discípulo (cf. Jo 13,23): "O mar restituiu os mortos que em si estavam. Do mesmo modo, a morte e a subterrânea morada. Cada um foi julgado segundo suas obras. A morte e a subterrânea morada foram lançadas no lago de fogo. A segunda morte é esta: o lago de fogo." Ap 20,13-14

    E como a Carta de São Paulo aos Romanos ensina sobre a Salvação, a morte entrou no mundo pelo pecado, mas através de Jesus veio infinitamente mais: a Divina Graça: "Por isso, como por um só homem, o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo gênero humano, porque todos pecaram... Mas o dom da Graça não se compara com o pecado. Pois se a falta de um só causou a morte de todos, com muito mais razão o dom de Deus e o benefício da Graça, obtida por um só Homem, Jesus Cristo, foram copiosamente concedidos a todos. Assim como o pecado reinou para a morte, a Graça agora reina para a Vida Eterna, por meio de Jesus Cristo, Nosso Senhor." Rm 5,12.15.21

    Doutrinariamente, o rito de rezar pelos mortos já havia sido inspirado pelo Espírito Paráclito antes da Vinda de Cristo. O Segundo Livro de Macabeus, por flagrante incoerência rejeitado por alguns, registra esta piedosa obra de Judas Macabeus, líder de Israel em religiosa, política e militar revolta que resultou na expulsão final dos dominadores gregos: "Em seguida, fez uma coleta, enviando a Jerusalém cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados. Belo e santo modo de agir, decorrente de sua crença na Ressurreição, porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, por eles teria sido vão e supérfluo rezar." 2 Mc 12,44-45

domingo, 1 de novembro de 2026

Todos os Santos

    No Livro de Apocalipse de São João, é apontado um grupo de pessoas que alcançam a Graça de vestir branco, andar com Jesus e ter seus nomes por Si proclamados nos Céus, antes mesmo do Grande Dia da Ressurreição da Carne, portanto antes do Juízo Final. Diz o próprio Cristo, referindo-Se a uma das sete dioceses de Ásia à época: "Todavia, tens em Sardes algumas pessoas que não contaminaram suas vestes. Comigo andarão vestidas de branco, porque o merecem. O vencedor assim será revestido: de brancas vestes. Jamais apagarei seu nome do Livro da Vida, e proclamá-lo-ei diante de Meu Pai e de Seus anjos." Ap 3,4-5

    O Amado Discípulo também viu nos Céus as almas dos Santos Mártires, que claramente intercedem a Deus clamando por Sua Justiça, às quais também foi dado vestir branco. Contudo, na Terra os martírios continuam, ou seja, essa intercessão, entre tantas outras, prossegue: "Quando abriu o quinto selo, debaixo do Altar vi as almas dos homens imolados por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho de que eram depositários. E clamavam em alta voz, dizendo: 'Até quando Tu, que és o Senhor, o Santo, o Verdadeiro, ficarás sem fazer Justiça e sem vingar nosso sangue contra os habitantes da Terra?' Então foi dada a cada um deles uma branca veste e lhes foi dito que aguardassem ainda um pouco, até que se completasse o número dos companheiros de serviço e irmãos que com eles estavam para serem mortos." Ap 6,9-11

    Em seguida, São João Evangelista vê uma incontável multidão de Santos de toda Terra, que trazem nas mãos palmas, que simbolizam a Vitória, e também vestem branco: "Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua. Conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de brancas vestes e palmas na mão, e bradavam em alta voz: 'A Salvação é obra de Nosso Deus, que está sentado no trono, e do Cordeiro.'" Ap 7,9

    E antes que os sete anjos toquem as sete trombetas para iniciar os castigos, as orações de intercessão da Santa Igreja Católica (cf. Ef 5,26; At 1,8) na Terra continuam subindo até Deus: "Adiantou-se outro anjo e pôs-se junto ao Altar, com um turíbulo de ouro na mão. Foram-lhe dados muitos incensos, para que os oferecesse com as orações de Todos os Santos no Altar de ouro, que está adiante do trono. A fumaça dos incensos subiu da mão do anjo com as orações dos Santos, diante de Deus. Depois disso, o anjo tomou o turíbulo, encheu-o de brasas do Altar e atirou-o à Terra. E houve trovões, vozes, relâmpagos e terremotos." Ap 8,3-5

    Assim, pela Vitória sobre o pecado e os malignos impérios, foi concedido às almas dos Mártires e demais Santos sentarem-se em tronos para reinar e julgar junto a Si, nos Juízos Particular e Final. É das últimas revelações a São João Apóstolo: "Também vi tronos, sobre os quais se sentaram aqueles que receberam o poder de julgar: eram as almas daqueles que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e todos aqueles que não tinham adorado a besta ou sua imagem, que não tinham recebido seu sinal na fronte nem nas mãos. Eles viveram uma nova vida e reinaram com Cristo por mil anos. Os outros mortos não tornaram à vida até que se completassem os mil anos. Esta é a Primeira Ressurreição. Feliz e Santo é aquele que toma parte na Primeira Ressurreição! Sobre eles a segunda morte não tem poder, mas serão Sacerdotes de Deus e de Cristo: Consigo reinarão durante os mil anos." Ap 20,4-6

    Entre canonizados ou não, portanto, a Igreja Católica Apostólica Romana (cf. Ap 1,8) tem nos Céus milhares e milhares de Santos. São eles que julgam se nossos pedidos, conforme a vontade do Pai (cf. 1 Jo 5,14), merecem ou não suas intercessões, tudo graças a Comunhão dos Santos. Ou seja, eles já estão reinando com Cristo, como vimos, e, evidentemente, sobre esse mundo, porque após Sua Definitiva Volta não mais haverá pagãos. Jesus mesmo prometeu, inclusive a Si próprio, aos católicos da diocese de Tiatira: "Então ao vencedor, àquele que praticar Minhas obras até o fim, lhe darei poder sobre as pagãs nações. Ele regê-las-á com cetro de ferro, como se quebra um vaso de argila, assim como Eu mesmo recebi o poder de Meu Pai. E dá-lhe-ei a Estrela da Manhã." Ap 2,26-28

    Enfim, que a Igreja Itinerante, nós ainda na Terra, também participa da Comunhão dos Santos, a prova é a própria Palavra de Jesus, que havia dito aos Onze, pois Judas Iscariotes já havia saído para O trair, depois da Santa Ceia, referindo-Se ao Domingo da Ressurreição. Está no Evangelho Segundo São João: "Naquele dia, conhecereis que estou em Meu Pai, e vós em Mim e Eu em vós." Jo 14,20

sábado, 31 de outubro de 2026

A Coroa da Vida

    Desde o Livro do Profeta Isaías, sete séculos antes do Advento do Salvador, foi revelado que Deus tem uma especial coroa para nos oferecer, quando trata da Salvação e da Jerusalém Celestial, que é a Igreja Católica Apostólica Romana (cf. Ap 21,2) no Céu: "Eles chegarão a Sião com cânticos de triunfo, e uma eterna alegria coroará suas cabeças. A alegria e o gozo possuí-los-ão..." Is 35,10

    Aliás, coroação de Glória que o rei Davi já via, certamente com olhos espirituais (cf. 1 Cor 2,12), e cantou no Livro de Salmos: "Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes... Que é um mortal, digo-me então, para Vos lembrardes d'ele? E um filho de Adão, para que venhais visitá-lo? Entretanto, Vós fizestes-lo pouco menos que um deus, de Glória e honra o coroastes." Sl 8,4-6

    O Livro de Sabedoria, ao referir-se a essa dádiva de Deus, fala de uma coroa de rei, numa alusão ao poder que ela confere, e também remete à Divina Glória: "Mas os justos viverão eternamente. Sua recompensa está no Senhor, e o Altíssimo cuidará deles. Por isso, receberão a régia coroa de Glória..." Sb 5,15-16

    No Livro de Eclesiástico, tal coroa é a Glória de que os anjos já usufruem: "Moisés foi amado por Deus e pelos homens: sua memória é abençoada. O Senhor deu-lhe uma Glória semelhante à dos santos (anjos)... Sobre sua tiara colocou uma coroa de ouro, onde estava gravado o cunho da santidade, da Glória e da honra..." Eclo 45,1-2.14

    Porque apesar de todos contratempos, o amor a Deus é regiamente recompensado, como a Carta de São Tiago nos diz: "Feliz o homem que suporta a tentação. Porque, depois de sofrer a provação, receberá a coroa da Vida que Deus prometeu àqueles que O amam." Tg 1,12

    A Primeira Carta de São Pedro, porém, só faz menção a ela por ocasião da Glória da Vida Eterna, ou seja, depois da Definitiva Volta de Cristo, e cobra dos Presbíteros, nossos atuais Padres, responsabilidade sobre pelas paróquias: "Eis a exortação que dirijo aos Anciãos que estão entre vós, porque sou Ancião como eles, fui testemunha dos sofrimentos de Cristo e com eles serei participante daquela Glória que há de se manifestar. Velai sobre o rebanho de Deus, que vos é confiado. E quando o Supremo Pastor aparecer, recebereis a imperecível coroa de Glória." 1 Pd 5,1-2.4

    Estas coroas, de fato, já estão antecipadamente distribuídas a 'anciãos' (anjos! serafins?), que representam o leigo ou ordenado Sacerdócio, desde que Deus Pai entrega o domínio da Terra a Jesus, o Cordeiro de Deus. Está no Livro de Apocalipse de São João: "Imediatamente, fui arrebatado em espírito. No Céu havia um trono, e nesse trono estava sentado um Ser. Ao redor havia vinte e quatro tronos, e neles, sentados, vinte e quatro anciãos vestidos de brancas vestes e com coroas de ouro na cabeça." Ap 4,2.4

    No início destas revelações ao Amado Discípulo (cf. Jo 13,23), Nosso Senhor avisou de uma tribulação a tentar uma específica diocese de Ásia de então: a da cidade de Esmirna. Contudo, Ele segue prometendo a coroa da Vida, pois Ele é o Senhor da Vida! "Nada temas ante o que hás de sofrer. Por estes dias, o Demônio vai lançar alguns de vós na prisão, para vos pôr à prova. Tereis tribulações durante dez dias. Sê fiel até a morte, e dá-te-ei a coroa da Vida." Ap 2,10

    Ele promete-nos, ademais, Sua proteção durante as tribulações aqui na Terra, através da diocese da cidade de Filadélfia. E assim como nosso Primeiro Papa (cf. Jo 21,15s), São Tiago Menor e São João Apóstolo já eram em vida (cf. Gl 2,9), o vencedor tornar-se-á parte estrutural da Santa Igreja Católica (cf. Ef 5,26; At 1,8): "Porque guardaste a Palavra de Minha paciência, também te guardarei da hora da provação, que está para sobrevir ao mundo inteiro, para provar os habitantes da Terra. Venho em breve. Conserva o que tens, para que ninguém tome tua coroa. Farei do vencedor uma coluna no Templo de Meu Deus, de onde jamais sairá..." Ap 3,10-12

    Maria Santíssima, Nossa Mãe Celeste, também foi coroada. Aliás, fora Jesus, é a única pessoa que o Novo Testamento apresenta coroada de Glória. E de tão especial forma que os Ministérios dos Apóstolos, que representam as 12 tribos de Israel, são apenas estrelas em Sua coroa. Nela, portanto. cumpriu-se esta promessa feita havia vários séculos: "Em seguida, no Céu apareceu um grande sinal: uma Mulher revestida do sol, tendo a lua debaixo de seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Ela deu à luz um Filho, um Menino, Aquele que deve reger todas pagãs nações com cetro de ferro. Mas seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e de Seu trono." Ap 12,1.5

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O Ser Humano e a Perfeição

    Fazendo-nos lembrar nossa divina origem e filiação, Jesus pregou durante o Sermão da Montanha no Evangelho Segundo São Mateus, citando um preceito dado por Deus a Moisés no Livro de Levítico, para ser transmitido aos israelitas (cf. Lv 19,2): "Portanto, sede perfeitos, assim como Vosso Pai Celeste é perfeito." Mt 5,48

    E a Carta de São Paulo aos Colossenses exorta-nos a restaurar nossa divina imagem (cf. Gn 1,26) através do amor a Deus de todo entendimento (cf. Mc 12,30): "Vós despiste-vos do velho homem com seus vícios, e revestiste-vos do novo, que constantemente vai restaurando-se à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,9-10

    Pois como a Carta de São Paulo aos Efésios ensina, Cristo é nossa medida, nossa perfeita reconciliação com o Pai: "... até que todos alcancemos a Unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, o estado de Perfeito Homem, a estatura da plenitude de Cristo." Ef 4,13

    Por isso, os Apóstolos pregaram, para que cheguemos a Sua estatura, como São Paulo fez: "A Ele é que anunciamos, admoestando todos homens e instruindo-os em toda Sabedoria, para tornar todo homem perfeito em Cristo." Cl 1,28

    De fato, Nosso Salvador prometeu que, se O tomarmos como Mestre, alcançaremos Sua maturidade. Foi ainda antes de convocar os Doze Apóstolos, na narrativa do Evangelho Segundo São Lucas: "O discípulo não é superior ao Mestre, mas todo perfeito discípulo será como Seu Mestre." Lc 6,40

    Ora, os autênticos seguidores de Jesus recebem Sua Glória, que Ele mesmo derramou sobre os Apóstolos como prova de Sua Vinda e do amor do Pai, para que a Santa Igreja Católica (cf. Ef 5,26; At 1,8) viva a mesma Unidade da Santíssima Trindade. No Evangelho Segundo São João, na noite em que ia ser entregue, Ele rezou ao Pai: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para eles que sejam Um como Nós somos Um: Eu neles e Tu em Mim. Para que sejam perfeitos na Unidade, e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23

    E é pela obediência à Palavra de Deus que chegamos à santidade, conforme a Segunda Carta de São Paulo a São Timóteo: "Toda Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na Justiça. Por ela, o homem de Deus torna-se perfeito, capacitado para toda boa obra." 2 Tm 3,16-17

    Por isso, a Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses já rezava Àquele que pode dá-la: "O Deus da Paz conceda-vos perfeita santidade. Que todo vosso ser, a saber, espírito, alma e corpo, seja conservado irrepreensível para a Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo!" 1 Ts 5,23

    A Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios, no mesmo sentido, associa a perfeição à presença de Deus em nós: "Tendei à perfeição, animai-vos, tende um só coração, vivei em Paz, e o Deus de amor e Paz estará convosco." 2 Cor 13,11

    E sobre o meramente mundano comportamento, a Carta de São Paulo ao Romanos prega: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação de vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito." Rm 12,2

    A Sabedoria, pois, tem mostrado que a perfeição vem pela prática da caridade, seja material seja espiritual. O Apóstolo dos Gentios (cf. Gl 2,8) vai dizer: "Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição." Cl 3,14

    Por isso, para que ela esteja em nós de modo cada vez mais vivo, a Carta de São Paulo aos Filipenses explica: "Peço, em minha oração, que vossa caridade se enriqueça cada vez mais de compreensão e critério, com que possais discernir o que é mais perfeito, e tornei-vos puros e irrepreensíveis para o Dia de Cristo..." Fl 1,9-10

    E a Primeira Carta de São Pedro diz que esta é uma obra de Deus: "O Deus de toda Graça, que vos chamou em Cristo a Sua Eterna Glória, depois que tiverdes padecido um pouco, aperfeiçoá-vos-á, torná-vos-á inabaláveis, fortificá-vos-á." 1 Pd 5,10

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Novos Céus e Nova Terra

    Sete séculos antes da Encarnação de Cristo, no Livro do Profeta Isaías, Deus já tinha prometido que, para bem realizar Sua Justiça, recriaria o Universo: "... porque as desgraças de outrora serão esquecidas, já não lhes volverão ao espírito. Pois Eu vou criar novos céus e nova Terra. O passado já não será lembrado, já não volverá ao espírito, mas será experimentada a eterna alegria e felicidade daquilo que vou criar." Is 65,16b-18a

    Ele fala da verdadeira felicidade, ou seja, dos Céus, para que neles Seus filhos vivam a eternidade: "'Pois assim como os novos céus e a nova Terra, que vou criar, devem subsistir diante de Mim', declara o Senhor, 'devem subsistir vossa raça e vosso nome.'" Is 66,22

    Longe de atemorizar, portanto, Deus assegura, ao revelar a consumação dos tempos, que Sua Justiça ostensivamente será feita, para oferecer Consolação a Seu povo. Foi exatamente nestes termos que o Livro de Eclesiástico interpretou as visões do Profeta Isaías: "Por uma poderosa inspiração, ele viu o fim dos tempos, e consolou aqueles que choravam em Sião. Ele anunciou o futuro até a eternidade, assim como as coisas ocultas antes que se cumprissem." Eclo 48,27-28

    Mas falando sobre este que não deixará de ser o temível Dia do Senhor, a Segunda Carta de São Pedro deu detalhes. E sua maior preocupação é com a purificação de nosso Coração, para que alcancemos esta promessa de Deus: "Naquele dia, os céus passarão com um assombroso estrondo, os elementos abrasados dissolver-se-ão e a Terra será consumida com todas obras que ela contém. Uma vez que todas estas coisas hão de se desagregar, considerai qual deve ser a santidade de vossa vida e de vossa piedade, enquanto esperais e apressais o Dia de Deus, esse Dia em que, inflamados, os céus hão de se dissolver e, abrasados, os elementos hão de se fundir! Nós, porém, segundo Sua promessa, esperamos novos céus e nova Terra, nos quais a Justiça habitará." 2 Pd 3,10-13

    Ora, o próprio Jesus falou de cósmicos fenômenos, que sucederão a Grande Tribulação por Ele anunciada (cf. Mc 13,19). Foi durante Sua última Páscoa em Jerusalém, enquanto preparava os Apóstolos, como o Evangelho Segundo São Mateus aponta: "Logo após a Tribulação daqueles dias, o sol vai ficar escuro, a lua não mais brilhará e as estrelas cairão do céu, e os poderes do espaço ficarão abalados." Mt 24,29

    E no Evangelho Segundo São Lucas, também depois do Domingo de Ramos, Ele deu detalhes da reação da humanidade diante de tão estarrecedores acontecimentos: "Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. E na Terra, as nações cairão em desespero, apavoradas com o barulho do mar e das ondas. Os homens desmaiarão de medo e ansiedade, pelo que vai acontecer a toda Terra..." Lc 21,25-26

    Afirmou o fim de todo Universo, em contraponto à permanência de Sua Palavra. Está entre Seus últimos ensinamentos na Cidade Santa: "Os céus e a Terra desaparecerão, mas Minhas palavras não desaparecerão." Lc 21,33

    Em consonância, nosso Primeiro Papa (cf. Jo 21,15s) vai reafirmar o poder do Verbo Encarnado, também indicando o final destino de tudo que conhecemos: "Mas os céus e a Terra que agora existem são guardados pela mesma Divina Palavra, e reservados para o fogo no Dia do Juízo e da perdição dos ímpios." 2 Pd 3,7

    Mas sem os auxílios do Espírito Santo (cf. 1 Cor 2,12), para nós é inimaginável o poder que Deus manifestará. Por isso, Ele tornou a o revelar quase ao fim o Livro de Apocalipse de São João, para que também fosse registrado como parte da Nova e Eterna Aliança: "Vi, então, um grande trono branco e Aquele que nele Se sentava (Deus). Os céus e a Terra fugiram de Sua face, e já não se achou lugar para eles." Ap 20,11

    Com efeito, das revelações que teve, o Amado Discípulo (cf. Jo 13,23) também narra a Recriação: "Vi, então, um novo céu e uma nova Terra, pois o primeiro céu e a primeira Terra desapareceram..." Ap 21,1a

    E testemunhou mais esta visão, no penúltimo capítulo de Apocalipse: "Então Aquele que está sentado no trono disse: 'Eis que Eu renovo todas coisas.' Ainda disse: 'Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras.' Novamente me disse: 'Está pronto! Eu sou o Alfa e o Ômega, o Começo e o Fim.'" Ap 21,5-6a

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

São Judas Tadeu, Apóstolo

    Foi um dos mais reservados Apóstolos, de quem poucos registros ficaram, mas por isso não se pode deduzir que tenha sido menos ativo. De fato, não é muito mencionado. E aparece nas listas dos Apóstolos nos Evangelhos sempre entre os últimos dos Doze. O Evangelho Segundo São Mateus, por exemplo, apontou: "Eis os nomes dos Doze Apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro, depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Filipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, que foi o traidor." Mt 10,2-4

    E o Evangelho Segundo São Lucas, que não o chama de Tadeu, mas de Judas, seu primeiro nome, claramente diz que ele é irmão de São Taigo Menor, e só o menciona à frente de Judas Iscariotes: "Ao amanhecer, chamou Seus discípulos e dentre eles escolheu Doze, que chamou de Apóstolos: Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro; André, seu irmão; Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Simão, chamado Zelota; Judas, irmão de Tiago; e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor." Lc 6,13-16

    Parente de Jesus, ele é citado como um de Seus irmãos por São Mateus e no Evangelho Segundo São Marcos, que reproduzimos: "Não é Ele o carpinteiro, o Filho de Maria, o irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão?" Mc 6,3

    É São Judas que questiona Jesus, no Evangelho Segundo São João, quanto a Seu modo de Se manifestar pessoa a pessoa, pois gostaria de O ver manifestando-Se o quanto antes ao mundo todo, de glorioso modo e em definitivo. Nessa passagem, fica evidente o respeito com que ele trata Jesus, chamando-O de Senhor, detalhe que também desmistifica a ideia de que seria Seu irmão, como hereges pretendem, e assim simplesmente pela absoluta falta de intimidade: "Pergunta-Lhe Judas, não o Iscariotes: 'Senhor, por que razão hás de Te manifestar a nós e não ao mundo?' Respondeu-lhe Jesus: 'Se alguém Me ama, guardará Minha Palavra e Meu Pai amá-lo-á. E Nós viremos a si, e em si faremos Nossa morada.'" Jo 14,22-23

    Ele ainda tem seu nome nas listas dos Onze presentes no Cenáculo, antes da ostensiva vinda do Espírito Santo no Pentecostes, conforme o Livro de Atos dos Apóstolos, quando São Lucas nova e exclusivamente o indica como irmão de São Tiago Menor, ou seja, não de Jesus, e agora como o último deles, atrás até mesmo de São Simão Zelota, que dos Doze é o menos citado. Ademais, nosso evangelista aponta a presença da Santíssima Virgem, Mãe da Igreja fundada por Jesus (cf. Jo 21,15): "Tendo entrado no Cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o zelota, e Judas, irmão de Tiago. Todos eles unanimemente perseveravam em oração, juntamente às mulheres, entre elas Maria, Mãe de Jesus, e Seus irmãos." At 1,13-14

    Por fim, nosso Santo assina uma epístola providencialmente se identificando como irmão de São Tiago Menor, assim como São Lucas, de expresso modo, o identificou por duas vezes. Essa passagem deixa ainda mais claro que ele não era irmão de Jesus, nem filho de Nossa Senhora ou sequer de São José, como ainda mais delirantes hereges divulgam. Ora, São de Tiago Menor era filho de Santa Maria esposa de São Cleófas, ou Alfeu (cf. Mc 3,18), seu equivalente hebraico, e parenta de Maria Santíssima. Ele não se identifica como irmão de Jesus, como seguramente faria se o fosse, mas como Seu servo: "Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago..." Jd 1

    A Carta de São Judas também não é extensa. Ele justifica-a apenas para corroborar o que 'os Apóstolos' ensinavam, como se não fosse um deles, para deixar seu testemunho sobre Cristo e alertar para as correntes heresias já existentes, exortando os fiéis a não desanimarem com o zombaria que sofriam. E dá um importante registro de que a Revelação já estava encerrada, portanto só cabe ser explicitada, chamando-a de 'fé'': "Caríssimos, estando eu muito preocupado em vos escrever a respeito de nossa comum Salvação, senti a necessidade de vos dirigir esta carta para vos exortar a pelejar pela fé, de uma vez para sempre confiada aos Santos. Pois certos ímpios furtivamente se introduziram entre nós, os quais desde muito tempo estão destinados para este Julgamento. Eles transformam em dissolução a Graça de Nosso Deus, e negam Jesus Cristo, Nosso Único Mestre e Senhor. Mas vós, caríssimos, lembrai-vos das palavras que vos foram preditas pelos Apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo, os quais vos diziam: 'No fim dos tempos virão impostores, que viverão segundo suas ímpias paixões. Homens que semeiam a discórdia, homens sensuais que não têm o Espírito Santo.'" Jd 3-4.17-19

    Demonstrando o mesmo respeito que se viu no Evangelho Segundo São João, por seis vezes ele menciona o Nome de Jesus, e em todas O chama de Cristo. Aliás, como visto, também O chamou de 'Nosso Único Mestre e Senhor', ou seja, nenhum resquício de familiar intimidade, muito menos de sanguínea irmandade.

São Simão Zelota, Apóstolo

    Certamente, o menos conhecido dentre os Apóstolos originários. Nas listas, sempre é citado entre os últimos pelos evangelistas, duas das três vezes à frente apenas de Judas Iscariotes, e no Evangelho Segundo São Mateus é chamado de 'cananeu', por seu engajamento no movimento nacionalista de então: "Eis os nomes dos Doze Apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro, depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Filipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, que foi o traidor." Mt 10,2-4

    Assim como o Evangelho Segundo São Marcos (cf. Mc 3,18), que serviu de texto base para os demais, o Evangelho Segundo São Lucas aponta o apelido de zelota, em referência ao apaixonado zelo que seu grupo religioso tinha pelas Escrituras, desejoso de as ver plenamente respeitadas: "Ao amanhecer, chamou Seus discípulos e escolheu Doze dentre eles, que chamou de Apóstolos: Simão, a quem impôs o nome de Pedro. André, seu irmão. Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Simão, chamado zelota. Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor." Lc 6,13-16

    Após esta citação, São Simão só mais uma vez será nominalmente citado, seja nos Evangelhos ou nos demais Livros do Novo Testamento: na lista dos Onze, já sem Judas Iscariotes, do Livro de Atos dos Apóstolos, logo após a Ascensão de Jesus e pouco antes do Pentecostes, quando o Amado Médico de novo o coloca, por algum motivo, à frente de ninguém menos que São Judas Tadeu, um dos chamados 'irmãos' de Nosso Salvador, quando também registra a essencial presença da Santíssima Virgem para a constituição da Santa Igreja Católica (cf. Ef 5,26; At 1,8), que em seguida nasceria: "Tendo entrado no cidade, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o zelota, e Judas, irmão de Tiago. Todos eles unanimemente perseveravam em oração, juntamente às mulheres, entre elas Maria, Mãe de Jesus, e Seus irmãos." At 1,13-14

    Mas como zelota, e por isso íntimo de São Pedro, era ele que possuía uma das espadas que os Apóstolos levavam, como vemos momentos antes de partirem para o horto das Oliveiras, onde Jesus ia ser entregue. Pouco antes de deixarem o lugar da Santa Ceia, o Divino Mestre havia ordenado: "'Quando vos mandei sem bolsa, sem mochila e sem calçado, faltou-vos porventura alguma coisa?' Eles responderam: 'Nada.' 'Mas agora', disse-lhes Ele, 'aquele que tem uma bolsa, tome-a. Aquele que tem uma mochila, igualmente a tome. E aquele que não tiver uma espada, venda sua capa para comprar uma.' Eles replicaram: 'Senhor, eis aqui duas espadas!' 'Basta!', respondeu Ele." Lc 22,35b-36.38

    A outra espada era levada por aquele que viria a ser o Primeiro Papa (cf. Jo 21,15s), como vemos no Evangelho Segundo São João, quando Nosso Senhor foi preso pelos guardas dos líderes religiosos judeus de Jerusalém: "Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou-a e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco. Mas Jesus disse a Pedro: 'Enfia tua espada na bainha! Não hei de beber o Cálice que o Pai Me deu?'" Jo 18,10-11

    Assim como São Tiago Menor e São Judas Tadeu, que eram parentes próximos de Jesus (cf, Mc 15,40 e Jd 1), e ainda São Tomé e Judas Iscariotes, de São Simão Zelota não ficou registrado em que momento ele passou a acompanhar o Senhor, diferente do que aconteceu com os demais Apóstolos. Mas baseando-se no Evangelho de São João, é muito provável que ele também tenha sido convidado para as Bodas de Caná, talvez pelo próprio São Pedro, e assim presenciado o milagre da transformação da água em vinho. Com efeito, nesta ocasião e pelo local, o Amado Discípulo (cf. Jo 13,23), como ocular testemunha e de tão pontuais e cronológicos registros, dá a entender que o grupo dos Apóstolos já estava formado, exceto pela ausência de São Mateus, que só seria chamado em Cafarnaum (cf. Mc 2,14), onde Jesus foi morar após deixar Nazaré (cf. Mt 4,13): "Este foi o princípio dos sinais. Jesus realizou-o em Caná de Galileia. Manifestou Sua Glória, e Seus discípulos creram em Si." Jo 2,11

terça-feira, 27 de outubro de 2026

O Amor de Deus

    O sagrado autor do Livro de Sabedoria belamente percebeu o amor de Deus: "Tendes compaixão de todos, porque Vós podeis tudo. E para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens. Porque amais tudo que existe, e não odiais nada do que fizestes, porquanto, se o odiásseis, não o teríeis feito de modo algum. Como poderia subsistir qualquer coisa, se não a tivésseis querido, e conservar a existência, se por Vós não tivesse sido chamada? Mas poupais todos seres, porque todos são Vossos, ó Senhor, que amais a vida." Sb 11,23-26

    Por isso, o rei Davi canta no Livro de Salmos, pedindo perdão em nome de Seu amor: "Ó Deus, tem piedade de mim conforme Tua Misericórdia. Em Teu grande amor, cancela meu pecado." Sl 51,3

    E afere-lhe o justo valor: "Porque Vosso amor me é mais precioso que a vida..." Sl 63,4

    De fato, firmando a promessa da Nova e Eterna Aliança, Deus mesmo disse a Jerusalém no Livro do Profeta Isaías: "'Mesmo que as montanhas oscilassem e as colinas se abalassem, jamais Meu amor te abandonará, e jamais Meu pacto de Paz vacilará,' diz o Senhor, que Se compadeceu de ti." Is 54,9-10

    E se vez e outra somos castigados, também é fácil atestar, bem observando os acontecimentos, Sua infinita afabilidade, pois Ele também lhe havia dito : "Num acesso de cólera, de ti volvi Minha face. Mas em Meu eterno amor, de ti tenho compaixão." Is 54,8

    Não seria, porém, o amor, e tão simplesmente o amor, ainda hoje, a mais difícil lição que Jesus tenta ensinar-nos? Será que nós compreendemos, ao menos um pouco, a dimensão de Seu amor? Concebemos, ao menos momentaneamente, que podemos amar como Ele nos ama? No Evangelho Segundo São João, Ele estabeleceu esse parâmetro, na noite da Santa Ceia: "Este é Meu Mandamento: amai-vos uns aos outros, como Eu vos amo." Jo 15,12

    A Primeira Carta de São João reafirmou esse caminho, dizendo de perfeição: "Se mutuamente nos amarmos, Deus permanece em nós e Seu amor em nós é perfeito." 1 Jo 4,12b

    Mas a pergunta é: que amor é esse que O levou a morrer por nós? Realmente percebemos o exemplo de tantos Santos e Mártires? Também chegaríamos, por amor, a essas consequências? De toda forma, essa é a meta por Ele estabelecida e demonstrada em Sua Paixão: "Ninguém tem maior amor que Aquele que dá sua vida por seus amigos." Jo 15,13

    Porém, também deixou claro que não podemos ser amados por Deus se não amarmos a Ele, Seu Filho: "Pois o próprio Pai vos ama, porque vós Me amastes e crestes que saí de Deus." Jo 16,27

    Por isso, ressaltando o valor da perseverança para que vençamos a insensibilidade, a inconstância e a faltosa consciência, Nosso Senhor recomendou-nos em últimos ensinamentos: "Se guardardes Meus Mandamentos, sereis constantes em Meu amor, como Eu também guardei os Mandamentos de Meu Pai e persisto em Seu amor." Jo 15,10

    A despeito dos insondáveis desígnios de Deus, portanto, alguma luz nos é dada sobre Sua didática quando lemos esta passagem do Livro de Provérbios: "Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que Ele te repreenda, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima." Pr 3,11-12

    Ora, a Carta de São Tiago, que era um dos chamados 'irmãos' de Nosso Senhor (cf. Mt 27,56), dizendo do Espírito Santo, justifica: "Todo aquele que quer ser amigo do mundo, constitui-se inimigo de Deus. Ou imaginais que a Escritura diz em vão: 'Sois amados até o ciúme pelo Espírito que em vós habita?'" Tg 4,4b-5

    E a Carta de São Paulo aos Efésios reza: "... que poderosamente sejais robustecidos por Seu Espírito em vista do crescimento de vosso homem interior. Que Cristo habite em vossos corações pela fé, arraigados e consolidados no amor, a fim de que possais, com todos cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer o amor de Cristo, que desafia todo conhecimento..." Ef 3,16-19

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

A Ira de Deus

    Embora muito mais se fale do amor de Deus, também se deve ter claro Sua ira, como se viu na punição pelo pecado da idolatria durante o Êxodo. Aliás, Sua fúria continua até mesmo sobre os já falecidos, como Ele mesmo diz no cântico de Moisés, que estava em seus últimos anos, visto no Livro de Deuteronômio: "Eles provocaram Meu ciúme com um falso deus, e irritaram-Me com seus vazios ídolos. O fogo de Minha ira está a arder e vai queimar até à mansão dos mortos, vai devorar a Terra e seus produtos, e abrasar o alicerce das montanhas." Dt 32,21-22

    De fato, apesar das frequentes intervenções de Moisés, nem todos israelitas entraram na Terra Santa. Mais tarde, através de um sagrado autor no Livro de Salmos, Deus mesmo justificou: "Por isso, em Minha ira, jurei que não haveriam de entrar no lugar de descanso que lhes prometera!" Sl 94,11

    E dado que Israel não acolhia Seus Profetas, Ele usou da brutalidade do inimigo exército, os babilônios, para corrigir Seu povo. São registros do Segundo Livro de Crônicas, quando se deu a destruição do Templo, de Jerusalém e o exílio em Babilônia: "Em vão o Senhor, Deus de seus pais, havia-lhes enviado avisos sobre avisos por meio de Seus mensageiros, pois tinha compaixão de Seu povo e de Sua própria Habitação. Eles zombavam de Seus enviados, desprezavam Seus conselhos e riam de Seus Profetas, até que a ira de Deus se desencadeou sobre Seu povo e não houve mais remédio. Então Deus suscitou contra eles o rei dos caldeus, que, no próprio edifício do Santuário, mandou matar Seus jovens, e não poupou nem o adolescente, nem a donzela, nem o ancião, nem a mulher de cabelos brancos. O Senhor entregou-lhe tudo." 2 Cr 36,15-17

    Ademais, os Profetas também eram encarregados de anunciar Seus castigos, como vemos no Livro do Profeta Isaías, cem anos antes, ao falar do símbolo máximo da ira de Deus: Seu Dia, o Dia do Juízo Final: "Lamentai-vos, porque o Dia do Senhor está próximo, ele chega como uma devastação provocada pelo Todo-Poderoso. . Eis o Dia do Senhor, que vem implacável, e com ele o ardente furor da cólera, para reduzir a Terra a um deserto e dela exterminar os pecadores." Is 13,6.9

    Ora, o atual inferno, para onde as más almas vão, ainda não é a definitiva condenação. E a ira de Deus, de tão real e efetiva, tem-se manifestado de tal forma que os maus anjos, Satanás entre eles, já foram punidos. A Segunda Carta de São Pedro diz: "Pois se Deus não poupou os anjos que pecaram, mas precipitou-os nos tenebrosos abismos do inferno onde os reserva para o Julgamento..." 2 Pd 2,24

    Aliás, na parábola das ovelhas e dos cabritos, que consta do Evangelho Segundo São Mateus, Jesus pronunciou Seu veredicto durante Sua última Páscoa: "Retirai-vos de Mim, malditos! Ide para o eterno fogo destinado ao Demônio e aos seus anjos." Mt 25,41

    São João Batista igualmente advertia da ira de Deus, e, como única solução, apontava para a Redenção oferecida na Pessoa de Cristo. É seu discurso antes de ser preso, quando soube que Jesus já havia iniciado Seu Ministério, como está no Evangelho Segundo São João: "Aquele que crê no Filho, tem a Vida Eterna. Quem não crê no Filho, não verá a Vida, mas sobre ele pesa a ira de Deus." Jo 3,36

    Em mesmo sentido, acusando os desvios dentro do próprio Cristianismo, a Carta de São Paulo aos Colossenses prega a purificação do corpo e da alma para que não mais ofendamos o Pai Celeste: "Mortificai vossos membros, pois, no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria. Dessas coisas provém a ira de Deus sobre os descrentes." Cl 3,5-6

    Assim, pois, a Carta de São Paulo aos Romanos vê no lento vagar dos tempos a paciência de Deus, à espera que busquemos o Sacramento da Confissão, a sincera conversão: "Ou desprezas as riquezas de Sua bondade, tolerância e longanimidade, desconhecendo que a benignidade de Deus te convida ao Arrependimento? Mas por obstinação e impenitente coração, vais acumulando ira contra ti, para o Dia da Cólera e da revelação do justo Juízo de Deus..." Rm 2,4-5

domingo, 25 de outubro de 2026

Jesus, A Verdadeira Perfeição

    Como os seguidores da tradição de São Paulo atestam na Carta aos Hebreus, mesmo os Profetas não puderam chegar à perfeição antes do Advento do Salvador, pois foi Ele que nos trouxe a plenitude da Graça (cf. Jo 1,16): "E, no entanto, todos estes Mártires da fé não conheceram a realização das promessas! Porque Deus, que tinha para nós uma melhor sorte, não quis que eles chegassem sem nós à perfeição." Hb 11,39-40

    A Primeira Carta de São Pedro assim explicava o ápice da Revelação, que se deu na Cruz do Calvário, dizendo aos católicos: "Esta Salvação tem sido o objeto das investigações e das meditações dos Profetas que proferiram oráculos sobre a Graça que vos era destinada. Eles investigaram a época e as circunstâncias indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava e profetizava os sofrimentos do mesmo Cristo e as Glórias que deviam segui-los." 1 Pd 1,10-11

    De fato, enquanto Deus, Jesus é a própria perfeição, e assim elevou o Antigo Testamento à perfeição com Seus ensinamentos, abrindo para nós o caminho da perfeição. Ele advertiu logo no Sermão da Montanha, ou seja, ainda no início de Seu Ministério, como lemos no Evangelho segundo São Mateus: "Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para os abolir, mas sim para os levar à perfeição." Mt 5,17

    Por isso, o rico jovem que se julgava perfeito, numa prepotência, aliás, característica de ricos e da juventude, foi convidado à verdadeira perfeição por Nosso Senhor, que Se encaminhava a Jerusalém para Sua última Páscoa: "Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois vem e Me segue!" Mt 19,21

    Tal Graça, portanto, não nos seria concedida sem o Sacrifício de Cristo, que nos purifica por Seu Sangue através da Santa Igreja Católica (cf. Ef 5,26; At 1,8), ao conceder-nos o perdão dos pecados mediante o Sacramento da Confissão (cf. Jo 20,23). Os discípulos de São Paulo afirmam: "Por uma só oblação, Ele realizou a definitiva perfeição daqueles que recebem a santificação." Hb 10,14

    Porque só em Cristo teríamos o Sacerdote da Eternidade, que por Seu próprio Holocausto firmou a Eterna Aliança, como eles prosseguem: "Se a perfeição tivesse sido realizada pelo sacerdócio levítico, porque é sobre este quea legislação dada ao povo se funda, que necessidade ainda havia de que surgisse outro Sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, e não segundo a ordem de Aarão? E é notório que Nosso Senhor nasceu da tribo de Judá, tribo à qual Moisés nada encarregou ao falar do sacerdócio. Isto torna-se ainda mais evidente se se tem em conta que Este Outro Sacerdote, que surge à semelhança de Melquisedec, foi constituído não por prescrição de uma lei humana, mas por Sua imortalidade. Porque está escrito: 'Tu és eternamente Sacerdote, segundo a ordem de Melquisedec.' Pois a Lei nada levou à perfeição. Apenas foi portadora de uma melhor esperança que nos leva a Deus." Hb 7,11.14-17.19

    Ora, por Sua Paixão, Jesus tornou-Se o modelo da perfeição, ainda segundo eles, que disseram do Pai: "Aquele para Quem e por Quem todas coisas existem, desejando conduzir à Glória numerosos filhos, deliberou elevar à perfeição, pelo sofrimento, o Autor da Salvação deles, para que Santificador e santificados formem um só todo. Por isso, Jesus não hesita em os chamar Seus irmãos..." Hb 2,10-11

    Pois imbuídos da devida prudência, devemos estar cientes que viver a perfeição nesse mundo é um grande privilégio. Eles afirmaram aos hebreus, referindo-se à Igreja Apostólica (cf. Jo 20,21) e aos Santos (cf. Ap 20,6): "Vós, ao contrário, aproximaste-vos da montanha de Sião, da cidade do Deus Vivo, da Jerusalém Celestial, das miríades de anjos, da festiva assembleia dos primeiros inscritos no Livro dos Céus, e de Deus, Universal Juiz, e das almas dos justos, que chegaram à perfeição..." Hb 12,22-23

    Falando sobre Cristo, portanto, a Carta de São Paulo aos Colossenses exorta: "Porque aprouve a Deus fazer habitar n'Ele toda plenitude, e por Seu intermédio, ao preço do próprio Sangue na Cruz, Consigo reconciliar todas criaturas, restabelecendo a Paz a tudo quanto existe na Terra e nos Céus. Sendo vós alheios a Deus, e inimigos por vossos pensamentos e más obras há bem pouco tempo, eis que agora Ele vos reconciliou pela Morte de Seu Corpo Humano, para que possais apresentar-vos santos, imaculados, irrepreensíveis aos olhos do Pai." Cl 1,19-22

sábado, 24 de outubro de 2026

Os Sinais do Céu

    Jesus argumentou sobre sinais. No Evangelho Segundo São Mateus, escribas e fariseus vieram pedir-Lhe uma prova após a segunda multiplicação de pães e peixes do outro lado do Mar de Galileia, e Ele cobrou-lhes maturidade espiritual e coerência quanto a Sua manifestação: "Quando vem a tarde, dizeis: Haverá bom tempo, porque o céu está avermelhado. E de manhã: Hoje haverá tormenta, porque o céu está de um sombrio vermelho. Hipócritas! Sabeis distinguir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos?" Mt 16,2-4

    Após a repercussão do exorcismo e da cura que Ele realizou num endemoninhado cego e mudo, a religiosos destes mesmos grupos já havia dito que teriam que se contentar com o milagre da Sua Ressurreição, prenunciado no sinal que havia sido dado no Livro de Jonas: "'Mestre, queremos ver um sinal feito por Ti.' Respondeu-lhes Jesus: 'Esta adúltera e perversa geração pede um sinal, mas não lhe será dado outro sinal que aquele do Profeta Jonas. Do mesmo modo que Jonas esteve três dias e três noites no ventre do peixe, o Filho do Homem ficará três dias e três noites no seio da terra." Mt 12,38b-40

    Ora, Nosso Salvador é o mais evidente sinal de Deus, como está no Livro do Profeta Isaías que disse do pai do rei Davi, e para o mundo todo, através da Santa Igreja Católica (cf. Ef 5,26; At 1,8): "Naquele tempo, o Rebento de Jessé, que Se ergue como um sinal para os povos, será procurado pelas nações e gloriosa será Sua morada." Is 11,10

    Mas também sinal de contradição: Ele é Deus e vai ser desprezado, é Deus de amor e vai ser odiado, é Deus Onipotente e vai ser dominado, é Deus Imortal e vai ser assassinado. Foi isso que o religioso Simeão disse a Nossa Senhora, no dia da Apresentação do Menino Jesus no Templo de Jerusalém, como está Evangelho Segundo São Lucas: "Eis que este Menino está destinado a ser causa de queda e de reerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações." Lc 2,34-35a

    Pois está claro que as Graças de Deus nos serão cobrados. No Evangelho Segundo São João, sobre todos que foram testemunhas oculares de Seus ensinamentos e obras, Jesus mesmo vai dizer aos Apóstolos momentos antes do início de Sua Paixão: "Se Eu não viesse e não lhes tivesse falado, não teriam pecado. Mas agora não há desculpa para seu pecado. Se Eu não tivesse feito entre eles obras, como nenhum outro fez, não teriam pecado. Mas agora as viram, e odiaram a Mim e a Meu Pai." Jo 15,22.24

    E São João Evangelista foi pródigo ao falar de sinais. Aliás, era assim que se referia aos milagres de Cristo, dos quais destacou os sete mais importantes para demonstrar Sua divindade, começando pela transformação da água em vinho: "Este foi o princípio dos sinais. Jesus realizou-o em Caná de Galileia. Manifestou Sua Glória, e Seus discípulos creram em Si." Jo 2,11

    Já o simples povo de Israel, reagia do mais humano modo diante de Seus curas. Isso via-se desde o começo de Sua vida pública, e continuou: "Naquele tempo, Jesus foi para o outro lado do mar de Galileia, também chamado de Tiberíades. Uma grande multidão seguia-O, porque via os sinais que Ele operava a favor dos doentes." Jo 6,1-2

    Por isso, depois das profecias contras as cidades de Corazim, Betsaida e Cafarnaum, Ele faz esta oração ao Pai, exaltando exatamente Seus desígnios quanto à Revelação: "Eu bendigo-Te, Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequenos." Mt 11,25

    E deixou claro que não apenas sinais revelariam o Salvador: "Porque se levantarão falsos cristos e falsos profetas, que farão sinais e portentos para seduzir, se possível for, até os escolhidos." Mc 13,22

    O testemunho e os sinais que temos da Igreja Apostólica (cf. Jo 20,21), porém, são inconfundíveis. Os seguidores da tradição de São Paulo argumentam na Carta aos Hebreus: "Como, então, escaparemos nós se agora desprezarmos a mensagem da Salvação, tão sublime, primeiro anunciada pelo Senhor e depois confirmada pelos que a ouviram, comprovando-a o próprio Deus por sinais, prodígios, milagres e pelos dons do Espírito Santo, repartidos segundo Sua vontade?" Hb 2,3-4

    E como está na Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, o reconhecimento do cumprimento das profecias será cobrado, mais uma vez, daqueles que dizem que acreditam: "... as profecias são um sinal, não para os infiéis, mas para os fiéis." 1 Cor 14,22