quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O Autor da Graça

    Era o Divino Paráclito que agia em São João Batista "para preparar um povo bem disposto (cf. Lc 1,17)" a receber o Messias, como o Arcanjo Gabriel disse ao sacerdote São Zacarias, seu pai, quando avisou da gravidez de Santa Isabel. O Evangelho segundo São Lucas narrou: "Ele será para ti motivo de gozo e felicidade, e muitos alegrar-se-ão com seu nascimento. Porque será grande diante do Senhor e não beberá vinho nem cerveja, e desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo..." Lc 1,14-15

    Unção esta dada pela Santíssima Virgem, quando visitou Santa Isabel logo após conceber Jesus: "Ora, Isabel apenas ouviu a saudação de Maria e a criança estremeceu em seu seio, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 'Pois assim que a voz de tua saudação chegou a meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria em meu seio.'" Lc 1,41.44

    Era Ele que agia no religioso Simeão, quando o Menino Jesus foi apresentado no Templo de Jerusalém: "Ora, havia em Jerusalém um homem chamado Simeão. Este homem, justo e piedoso, esperava a Consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele. Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que não morreria sem primeiro ver o Cristo Senhor. Impelido pelo Espírito Santo, foi ao Templo. E tendo os pais apresentado o Menino Jesus, para a respeito d'Ele cumprirem os preceitos da Lei, tomou-O em seus braços e louvou a Deus nestes termos: 'Agora, Senhor, deixai ir em Paz Vosso servo, segundo Vossa Palavra. Porque meus olhos viram Vossa Salvação que preparastes diante de todos povos, como Luz para iluminar as nações, e para a Glória de Vosso povo de Israel." Lc 2,25-35

    Foi Ele Quem ungiu Jesus para que se cumprisse as Escrituras, como Nosso Senhor mesmo declarou no 'discurso inaugural' de Sua Missão, na sinagoga de Nazaré, lendo o Livro do Profeta Isaías, que havia falado por Si: "O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu. E enviou-Me para anunciar a Boa Nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção e aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os oprimidos e para publicar o ano da Graça do Senhor (Is 61,1-2)." Lc 4,18-19

    Ele é o Guia da Santa Igreja Católica, que conduziu São Pedro ao 'Pentecostes dos Gentios', como o Livro de Atos dos Apóstolos atesta: "Enquanto Pedro refletia sobre a visão, disse-lhe o Espírito: 'Eis aí três homens que te procuram. Levanta-te! Desce e vai com eles sem hesitar, porque sou Eu Quem os enviou.'" At 10,19-20

    É Ele que decide os Concílios da Igreja Católica, a exemplo do de Jerusalém, o primeiríssimo deles, como São Tiago Menor afirmou: "Com efeito, bem pareceu ao Espírito Santo e a nós não vos impor outro peso além do indispensável seguinte..." At 15,28

    Só através d'Ele podemos perceber que Jesus é Deus, como está na Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios: "... ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, senão sob a ação do Espírito Santo." 1 Cor 12,3

    Só através d'Ele, em Cristo Jesus, podemos ser Santa Igreja, membros do Corpo de Cristo, conforme a Carta de São Paulo aos Efésios: "É n'Ele que vós conjuntamente também entrais, pelo Espírito, na estrutura do edifício que se torna a morada de Deus." Ef 2,22

    Só através d'Ele podemos celebrar o Santíssimo Sacramento em nossa Santa Missa, nos termos da Carta de São Paulo aos Filipenses: "Porque os verdadeiros circuncisos somos nós, que prestamos culto a Deus pelo Espírito de Deus, e pomos nossa Glória em Jesus Cristo, e não confiamos na carne." Fl 3,3

    Ele quer-nos possessivamente para Si, o que é deduzido da Carta de São Tiago: "Ou imaginais que em vão diz a Escritura: 'Sois amados até o ciúme pelo Espírito que em vós habita?'" Tg 4,5

    Sabemos, enfim, que Pai, Filho e Espírito Santo vivem em perfeita unidade. São Três Pessoas, mas um só Deus. Eles sempre agem em Comunhão, mas costumamos 'separá-Los' por 'Suas funções', conforme Suas manifestações entre nós. O Pai seria o Criador, Jesus, o Salvador, e o Espírito Santo, o Autor de todas Graças, como os seguidores da tradição de São Paulo afirmam na Carta aos Hebreus: "Quanto pior castigo julgais que merece quem calcar aos pés o Filho de Deus, profanar o Sangue da Aliança, em que foi santificado, e ultrajar o Espírito Santo, Autor da Graça!" Hb 10,29

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

As Bem-Aventuranças

    No Sermão da Montanha, Jesus apresentou o Caminho a ser seguido por quem não se ilude com esse mundo. E tudo que Ele recomenda é verdadeira caridade pela Salvação das almas, que é a essência de Sua Doutrina. Está no Evangelho Segundo São Mateus, e no núcleo desse 'discurso da instauração do Reino de Deus', Ele fez a proclamação das bem-aventuranças: a síntese da felicidade maior.

    "Bem-aventurados aqueles que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!" Mt 5,3
    Seja em meio à pobreza ou à riqueza material (cf. Fl 4,12), quem tem um humilde coração já vivencia o Reino de Deus. Reconhece suas próprias limitações e sabe que os bens materiais não levam a paraíso algum. Não pensa em si mesmo, mas procura ajudar onde pode, como pode e a quem pode. Entrega-se nas mãos de Deus e confia em Sua Providência.

    "Bem-aventurados aqueles que choram, porque serão consolados!" Mt 5,4
    Chorar diante de uma grande contrariedade não é fraqueza. É sincera demonstração de sentimentos, aversão aos desenganos, natural lamentação de infortúnios. Destes compadece-Se Deus. Quem pacientemente sofre injustiças, sem se permitir perturbar a paz alheia, comove o Sofredor Coração de Jesus.

    "Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra!" Mt 5,5
    A mansidão permite conhecer mais claramente a Verdade, é reconfortante e perpetua a Paz de Cristo. A sua volta, o ambiente faz-se efetivamente presente, pois sem personalismos se tem melhor percepção da própria natureza e dos acontecimentos em curso. As obras de Deus só chegam plenamente aos sentidos através da porta da serenidade, e só por ela é possível a contemplação e a inspiração.

    "Bem-aventurados aqueles que têm fome e sede de Justiça, porque serão saciados!" Mt 5,6
    Trabalhar pelo bem do próximo, não se deixar levar por rancor ou pessimismo e purificar o próprio coração são provas de , esperança e amor (1 Cor 13,13). Sutilmente, Deus vai enchendo as mãos e o coração de quem pede Seus socorros contra injustiças. A silente aversão ao mundo é uma sóbria e resistente atitude, cardeal virtude da fortaleza.

    "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão Misericórdia!" Mt 5,7
    Dados tão frequentes desacertos da natureza meramente carnal, por excelência a compaixão é a marca de Deus. Perceber e tratar a dor alheia com delicadeza e respeito, faz despertar o amor que se deve ao semelhante e a Deus (cf. Mc 12,29s). É impossível ser feliz virando o rosto àqueles que sofrem. O coração realmente misericordioso aflige-se até mesmo vendo a tristeza dos maus.

    "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus!" Mt 5,8
    A pureza, a gratuidade e as boas intenções são as autênticas expressões do amor. Não há como amar competindo, negociando, buscando vantagens, vivendo de aparências e de valores materiais. Não há como perceber o amor de Deus quando se cultua fugazes prazeres, guardando supostos tesouros, agindo por escusos interesses, sustentando embustes, colecionando 'glórias' de injustiça e ilusão, usando e menosprezando o próximo.

    "Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!" Mt 5,9
    Obter e trazer em si a Paz de Cristo pela vida a fora, é uma das maiores bençãos. Depois do amor, deve ser o maior objetivo do cristão, até mesmo uma obrigação, pois ela nos foi oferecida (cf. Jo 14,27). Aqueles ativisticamente combativos e rebeldes, na grande maioria das vezes, mais atrapalham que ajudam. Salvo raras exceções, pelo bem deve-se buscar as metas do bem.

    "Bem-aventurados aqueles que são perseguidos por causa da Justiça, porque deles é o Reino dos Céus!" Mt 5,10
    Enquanto se multiplicam as iniquidades, os justos nadam contra a corrente defendendo os mais sofridos e os mais pobres. Enquanto o mundo insiste em ostentar suas efêmeras e vãs conquistas, centenas de milhões de pessoas são massacradas pela pobreza, pela enfermidade, pela fome, pela guerra e pela morte. Uma pequena parte faz festas com as riquezas da injustiça, enquanto a maioria esmola a saciação das mais elementares necessidades.

    "Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, perseguirem e falsamente disserem todo mal contra vós por causa de Mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande vossa recompensa nos Céus, pois assim perseguiram os Profetas que vieram antes de vós." Mt 5,11-12
    Hoje, em vários segmentos sociais, falar de fé, de religião ou mesmo de Deus tornou-se sinônimo de ridículo. Tem-se como dever, em nome de uma suposta boa convivência, escolher em que ambiente falar sobre o bem-estar da alma. O mundo dos instantâneos prazeres nada quer ouvir sobre o verdadeiro amor, o Cristo, a Santa Igreja, a adoração a Deus, a contemplação, a reflexão, o crescimento espiritual, a oração, a vigília, o jejum e outras penitências.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Exércitos de Anjos

    Com a Advento, entre outras maravilhas tivemos uma expressiva manifestação dos Exércitos do Céu nos arredores de Belém, quando a humildes pastores um anjo anunciou o Natal do Senhor. O Evangelho Segundo São Lucas traz: "E ao anjo subitamente juntou-se uma multidão do Celeste Exército, que louvava a Deus e dizia:' Glória a Deus no mais alto dos Céus e Paz na Terra aos homens, objetos da divina benevolência.' Depois que os anjos os deixaram e voltaram para o Céu, falaram os pastores uns aos outros: 'Vamos a Belém e vejamos o que se realizou, o que o Senhor nos manifestou.'" Lc 2,13-15

    Era uma antiga profecia, como os seguidores da tradição de São Paulo escreveram na Carta aos Hebreus, aludindo ao que Deus falou no Livro de Salmos: "E novamente, ao introduzir Seu Primogênito na Terra, diz: 'Que todos anjos de Deus O adorem (Sl 96,7)!'" Hb 1,6

    Porque assim é a louvação que se deve ao próprio Deus, como o sagrado autor cantava: "Louvai-O, todos Seus anjos. Louvai-O, todos Seus Exércitos." Sl 148,2

    O intransigente ato de renegar Jesus, pois, tem graves consequências, automaticamente vedando os celestes auxílios. Ele mesmo asseverou, como apontado no Evangelho Segundo São Lucas: "Digo-vos: todo aquele que Me reconhecer diante dos homens, o Filho do Homem também o reconhecerá diante dos anjos de Deus. Mas quem Me negar diante dos homens, será negado diante dos anjos de Deus." Lc 12,8-9

    Pois a eles cabe a tarefa de separar o 'joio do trigo', ou seja, separar os que merecerão a Vida Eterna dos que serão condenados. Nosso Salvador afirmou: "O Filho do Homem enviará Seus anjos, que de Seu Reino retirarão todos escândalos e todos que fazem o mal, e lançá-los-ão na ardente fornalha, onde haverá choro e ranger de dentes." Mt 13,41-42

    Sem dúvida, eles trabalham com grande entusiasmo pela Salvação das almas, como Ele revelou: "Digo-vos que haverá júbilo entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrependa." Lc 15,10

    Trabalham na proteção das crianças, que é a função dos Anjos da Guarda: "Guardai-vos de menosprezar um só destes pequenos, porque Eu vos digo que no Céu seus anjos contemplam sem cessar a face de Meu Pai, que está nos Céus." Mt 18,10

    Na hora de nossa morte, ainda segundo Jesus: "Ora, aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos ao seio de Abraão." Lc 16,22a

    Até aprendem passo-a-passo com a Igreja Católica Apostólica Romana, como a Primeira Carta de São Pedro disse: "Esta Salvação tem sido o objeto das investigações e das meditações dos Profetas que proferiram oráculos sobre a Graça que vos era destinada. Revelações estas que os próprios anjos desejam contemplar." 1 Pd 1,10.12b

    Nominando duas ordens deles, a Carta de São Paulo aos Efésios diz o mesmo: "Assim, de ora em diante, as celestes dominações e potestades podem conhecer, por meio da Igreja, a multiforme Sabedoria de Deus, de acordo com o eterno desígnio que Ele realizou em Jesus Cristo, Nosso Senhor." Ef 3,10-11

    Eles estão presentes nos momentos dos Sacramentos, como neste protótipo da renovação dos votos da Ordenação, da Primeira Carta de São Paulo a São Timóteo: "Eu conjuro-te, diante de Deus, de Cristo Jesus e dos anjos escolhidos, a que guardes essas regras sem prevenção, nada fazendo por espírito de parcialidade." 1 Tm 5,21

    E no dia-a-dia dos membros da Igreja, segundo seus discípulos: "Não são todos anjos espíritos a serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a Salvação?" Hb 11,4

    Pois é isso que o acolhimento da Palavra representa: "Vós, ao contrário, aproximaste-vos da Montanha de Sião, da Cidade do Deus Vivo, da Jerusalém Celestial, das miríades de anjos..." Hb 12,22

domingo, 28 de dezembro de 2025

A Sagrada Família

    A Bíblia oferece belíssimas imagens da Sagrada Família. Uma delas é o Nascimento de Jesus, que o Evangelho Segundo São Lucas assim narrou: "José também subiu de Galileia, da cidade de Nazaré, a Judeia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, para se alistar com sua esposa Maria, que estava grávida. Ali estando eles, completaram-se os dias dela. E deu à luz Seu Filho Primogênito, e, envolvendo-O em faixas, reclinou-O num presépio, porque na sala não havia lugar para eles." Lc 2,4-7

    Na fuga para Egito, a Sagrada Família é vista em delicado momento. Mas não deixa de manifestar sua pujante espiritualidade, como o Evangelho Segundo São Mateus relata: "Depois de sua partida (dos Reis Magos), um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: 'Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe e foge para Egito. Fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o Menino para O matar.' José levantou-se durante a noite, tomou o Menino e Sua mãe e partiu para Egito. Ali permaneceu até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo Profeta (Oseias): 'De Egito, Eu chamei Meu Filho' (Os 11,1)." Mt 13-15

    Complementarmente, se São Mateus não registra a passagem da Sagrada Família por Jerusalém para a Apresentação do Senhor no Templo, quando José e Maria, mesmo sob as ameaças de Herodes, fiel e corajosamente vão cumprir suas obrigações religiosas, São Lucas não registra a fuga para Egito após a Apresentação, indicando apenas o retorno a Nazaré. Sem dúvida, outro luminoso momento: "Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o Menino, foi-Lhe posto o Nome de Jesus, como o anjo Lhe tinha chamado antes de ser concebido no seio materno. Concluídos, segundo a Lei de Moisés (Lv 12,4), os dias da purificação de Sua mãe, levaram-nO a Jerusalém para O apresentar ao Senhor, conforme o que está escrito na Lei do Senhor: 'Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor (Ex 13,2)'. E para oferecerem o sacrifício prescrito pela Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos (Lv 12,8). Após terem observado tudo segundo a Lei do Senhor, voltaram para Galileia, a Sua cidade de Nazaré." Lc 2,21-24,39

    Mais um memorável acontecimento na história da Sagrada Família é quando o Menino Jesus permanece em Jerusalém após o final da semana de Páscoa: "Seus pais iam todo ano a Jerusalém para a festa da Páscoa. Tendo Ele atingido doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa. Acabados os dias da festa, quando voltavam, o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que Seus pais o percebessem. Pensando que Ele estivesse com Seus companheiros de comitiva, andaram caminho de um dia e buscaram-nO entre os parentes e conhecidos. Mas não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à procura d'Ele. Três dias depois acharam-nO no Templo, sentado em meio aos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. Todos que O ouviam estavam maravilhados com a Sabedoria de Suas respostas. Quando eles O viram, ficaram admirados. E Sua mãe disse-Lhe: 'Meu filho, que nos fizeste?! Eis que Teu pai e eu andávamos a Tua procura, cheios de aflição.' Respondeu-lhes Ele: 'Por que Me procuráveis? Não sabíeis que devo estar na Casa de Meu Pai?'" Lc 2,41-49

    E mesmo tendo morrido quando Jesus estava no início de Sua juventude, São José não foi esquecido pelo povo de Nazaré. Ao contrário, Jesus, ao iniciar Sua vida pública, ainda era associado a ele. O povo vai perguntar-se em Nazaré: "Não é Este o Filho do carpinteiro?" Mt 13,55a

    Como São Marcos (cf. Mc 6,3), São Mateus vai nomear os primos de Jesus, que chamava de irmãos conforme o costume judaico, pois não havia a palavra 'primo' em seu idioma: "Não são Seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E Suas irmãs não vivem todas entre nós?" Mt 13,55b-56a

    Porque Nossa Senhora tinha em Nazaré ao menos uma prima, também chamada de 'irmã' no Evangelho segundo São João, quando narra a cena da Crucificação: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua mãe, a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena." Jo 19,25

    São Marcos, narrando a mesma cena, aponta essa prima como mãe de dois destes primos de Jesus: "Ali também se achavam umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José..." Mc 15,40

Santos Inocentes

 

    Como reação do mundo imerso em pecado, o Nascimento de Jesus provocou grandes manifestações de ira desde os primeiros momentos. No Livro de Apocalipse de São João, vemos que foi concedido a este Apóstolo, por visões, constatar este delicado momento, obra do próprio Demônio contra Nossa Senhora e o Menino Jesus: "Depois apareceu outro sinal no Céu: um grande e vermelho Dragão, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas. Com sua cauda varria uma terça parte das estrelas do céu, e atirou-as à Terra. Esse Dragão deteve-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de que, quando ela desse à luz, lhe devorasse o Filho." Ap 12,3-4

    Sem dúvida, o Advento revelou o que há nos corações como Simeão tinha previsto, o religioso de Jerusalém que esperava a Consolação de Israel. Ele disse a Maria Santíssima no dia da Apresentação do Menino Jesus no Templo, na leitura do Evangelho Segundo São Lucas: "Eis que este Menino está destinado a ser causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações." Lc 2,34-35

    A Primeira Carta de São João, de fato, vai fazer uma radical diferenciação: "... todo espírito que não proclama Jesus, não é de Deus, mas é o espírito do Anticristo, de cuja vinda tendes ouvido e agora já está no mundo." 1 Jo 4,3

    Jesus realmente apresentou-Se como essencial a qualquer ser humano, ou seja, como Deus, pois disse aos Apóstolos na noite em que ia ser entregue: "Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanecer em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto. Porque sem Mim nada podeis fazer." Jo 15,5

    E o massacre dos Santos Inocentes de Belém, primeiríssimos mártires da Santa Igreja Católica, ainda que por nascer (cf. At 2,3), mostra aonde pode chegar a crueldade das más inclinações humanas que se recusam a acolher Cristo, como Ele mesmo denunciou em Jerusalém perante Nicodemos, um notável fariseu que reconheceu Sua Missão desde o início: "... a Luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas que a Luz, pois suas obras eram más." Jo 3,19

    Ora, Herodes, o Grande, foi descrito por um historiador com essas palavras: "... um louco que assassinou sua própria família..." Refere-se ao fato d'ele ter mandado assassinar, por pura paranoia, dois filhos, um tio, a esposa, a sogra e dois sogros, atitudes que demonstram a plena plausibilidade do Massacre dos Inocentes que se deu na cidade de Belém, como veremos.

    Mas a própria Paixão de Nosso Senhor e o significado da Santa Cruz não acenam de outra forma para os cristãos. A realidade que vivem os membros da Igreja é exatamente aquela narrada por São João Apóstolo, quando o Dragão percebeu que não poderia vencer Nossa Santíssima Mãe: "Este, então, irritou-se contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, aos que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,17

    E essa tristíssima página da História do Catolicismo, a História dos Santos Inocentes, foi narrada no Evangelho segundo São Mateus, citando passagem do Livro do Profeta Jeremias. Aí ficou evidente que os Santos Reis tratavam Jesus como Deus, pois O adoraram: "Herodes, então, secretamente chamou os Magos e perguntou-lhes sobre a exata época em que o Astro lhes tinha aparecido. E enviando-os a Belém, disse-lhes: 'Ide e informai-vos bem a respeito do Menino. Quando O tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também vá adorá-Lo.' Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que a Estrela, que tinham visto no Oriente, lhes foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o Menino e ali parou. A aparição daquela Estrela encheu-os de profunda alegria. Entrando na casa, acharam o Menino com Maria, Sua mãe. Prostrando-se diante d'Ele, adoraram-nO. Depois, abrindo seus tesouros, como presentes Lhe ofereceram ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos para não tornarem a Herodes, voltaram a sua terra por outro caminho. Então vendo Herodes que tinha sido enganado pelos Magos, ficou muito irado, e em Belém e em seus arredores mandou massacrar todos meninos de dois anos para baixo, conforme o exato tempo que havia indagado dos Magos. Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo Profeta Jeremias: "Em Ramá ouviu-se uma voz, choro e grandes lamentos. É Raquel a chorar seus filhos! Não quer consolação, porque já não existem (Jr 31,15)!" Mt 2,7-12.16-18

sábado, 27 de dezembro de 2025

São João, Apóstolo e Evangelista

 

    Apesar de novo, ainda por volta de seus 20 anos, São João Evangelista já era discípulo de São João Batista. E apesar de não se identificar em seus próprios relatos, é um dos dois primeiríssimos Apóstolos a ter contato com Jesus, logo após Seu Batismo, em companhia de Santo André. Está no Evangelho Segundo São João, ele próprio: "No dia seguinte, estava lá João outra vez com dois de seus discípulos. E avistando Jesus que ia passando, disse: 'Eis o Cordeiro de Deus.' Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. Voltando-Se Jesus, e vendo que O seguiam, perguntou-lhes: 'Que procurais?' Disseram-Lhe: 'Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?' 'Vinde e vede', respondeu-lhes Ele. Foram aonde Ele morava e com Ele ficaram aquele dia. Era cerca da hora décima (4 da tarde). André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido João e que O tinham seguido." Jo 1,35-40

    Pescador de uma colônia de Cafarnaum, junto a seu pai e seu irmão São Tiago Maior, São João também foi dos primeiríssimos chamados a seguir Jesus, logo após São Pedro e Santo André, como o Evangelho Segundo São Mateus aponta: "Passando adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que com seu pai Zebedeu estavam consertando as redes. Chamou-os, e eles abandonaram a barca e seu pai e seguiram-nO." Mt 4,21-22

    O Evangelho Segundo São Lucas afirma que São João e São Tiago Maior faziam parte da mesma colônia de pesca de São Pedro e Santo André: "Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão..." Lc 5,10a

    Este evangelista tinha usado mais preciso termo, versículos antes: ""Fizeram então sinais para os sócios de outro barcos..."" Lc 5,7a

    Eles frequentavam a casa de São Pedro em Cafarnaum, que Jesus adotou como 'Sua' casa (cf. Mt 4,12): "Assim que saíram da sinagoga, dirigiram-se com Tiago e João à casa de Simão e André." Mc 1,29

    Nosso Senhor pôs-lhe um cognome: "Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer Filhos do Trovão." Mc 3,17

    Ele também é dos primeiros na lista dos Apóstolos; sempre um dos quatro, do primeiro dos três grupos: "Ao amanhecer, chamou Seus discípulos e escolheu Doze dentre eles, que chamou de Apóstolos: Simão, a quem pôs o nome de Pedro, André, seu irmão, Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Simão, chamado Zelota, Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor." Lc 6,13-16

    De fato, São João Evangelista fazia parte dos três mais íntimos Apóstolos de Jesus. Foi assim no monte das Oliveiras, pouco antes de Jesus ser preso pelos guardas do sumo sacerdote, dos escribas e dos anciãos: "Em seguida foram para o lugar chamado Getsêmani, e Jesus disse a Seus discípulos: 'Sentai-vos aqui, enquanto vou rezar.' Consigo levou Pedro, Tiago e João, e começou a ter pavor e a angustiar-Se. Disse-lhes: 'Minha alma está numa tristeza mortal. Ficai aqui e vigiai.'" Mc 14,32-34

    São João Evangelista também era muito íntimo de São Pedro, formando um parceria que durou muitos anos, e com ele foi mandado por Nosso Salvador ao lugar onde seria preparada a Santa Ceia: "Jesus enviou Pedro e João, dizendo: 'Ide e preparai-nos a ceia da Páscoa.'" Lc 22,8

    Como mais novo dos Doze, era o Apóstolo que Jesus amava, o que vai ser dito várias vezes em seu Evangelho! E assim ele estava com a cabeça reclinada sobre Seu peito, quando Ele anunciou que seria traído. Provocado por São Pedro, ele perguntou-Lhe quem seria o traidor: "Dito isso, Jesus ficou perturbado em Seu espírito e abertamente declarou: 'Em Verdade, em Verdade, digo-vos: um de vós há de trair-Me!' Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saber de quem falava. Um dos discípulos, a quem Jesus amava, estava à mesa reclinado ao peito de Jesus. Simão Pedro acenou-lhe para o instar: 'Dize-nos de quem é que Ele fala.' Reclinando-se este mesmo discípulo sobre o peito de Jesus, interrogou-O: 'Senhor, quem é?'" Jo 13,21-24

    E durante a crucificação, a qual é dos Doze o único a presenciar, ao menos de perto, ele recebe a incumbência de cuidar de Nossa Senhora, pois, como ela não tinha outros filhos, enquanto viúva ficaria sozinha: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua mãe, a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu Sua mãe, e perto dela o discípulo que amava, disse a Sua mãe: 'Mulher, eis aí teu filho.' Depois disse ao discípulo: 'Eis aí tua mãe.' E dessa hora em diante o discípulo levou-a para sua casa." Jo 19,25-27

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Santo Estevão

 

    Nosso protomártir, ou seja, o primeiro mártir, termo que deu origem a palavra testemunho, Santo Estevão era um dos sete primeiros diáconos, escolhido para trabalhar em serviços de auxílio da administração da Santa Igreja Católica. Mais especificamente, para partilhar o Pão entre as viúvas de origem grega, que estavam sendo preteridas, e assim os Apóstolos ficavam mais disponíveis para celebrar e catequizar, como alegaram durante o debate que levou a instituí-los, no Livro de Atos dos Apóstolos: "Por isso, os Doze convocaram uma reunião dos discípulos e disseram: 'Não é razoável que abandonemos a Palavra de Deus, para administrar. Portanto, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de Sabedoria, aos quais encarregaremos este ofício. Nós atenderemos sem cessar à oração e ao Ministério da Palavra." At 6,2-4

    E assim foi feita a indicação e a ordenação deles, quando o nome de nosso Santo é citado pela primeira vez: "Esse parecer agradou a toda a reunião. Escolheram Estêvão, homem cheio de e do Espírito Santo; Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. Apresentaram-nos aos Apóstolos, e estes, orando, impuseram-lhes as mãos." At 6,5-6

    Mas nosso diácono acabou por destacar-se exatamente no carisma da catequese, como inspirado evangelizador. Suas prédicas eram irresistíveis, e muitos judeus converteram-se ao ouvi-lo. Desconcertados, alguns helenistas, judeus de origem grega, até tentavam debater com ele: "Mas alguns da sinagoga, chamada dos Libertos, dos cirenenses, dos alexandrinos e dos que eram da Cilícia e da Ásia, levantaram-se para disputar com ele. Não podiam, porém, resistir à Sabedoria e ao Espírito que o inspirava." At 6,9-10

    Ademais, por ele Deus operava maravilhas: "Estêvão, cheio de Graça e fortaleza, fazia grandes milagres e prodígios entre o povo." At 6,8

    E como no 'julgamento' de Jesus (cf. Mt 26,60), arrolaram pessoas para levantar falsos testemunhos, grave pecado condenado nos Dez Mandamentos (cf. Êx 20,16), que foram pagas para o incriminar e o levar ao Sinédrio, o conselho dos judeus que ficava no Templo de Jerusalém: "Então subornaram alguns indivíduos para que dissessem que o tinham ouvido proferir palavras de blasfêmia contra Moisés e contra Deus. Assim amotinaram o povo, os anciãos e os escribas e, investindo contra ele, agarraram-no e levaram-no ao Grande Conselho. Apresentaram falsas testemunhas que diziam: 'Este homem não cessa de proferir palavras contra o Santo Lugar e contra a Lei. Nós ouvimo-lo dizer que Jesus de Nazaré há de destruir este Lugar e há de mudar as tradições que Moisés nos legou.'" At 6,11-14

    Nosso Santo, porém, dava claros sinais da pureza de seu coração: "N'ele fixando os olhos, todos membros do Grande Conselho viram seu rosto semelhante ao de um anjo." At 6,15

    Santo Estevão vai fazer uma belíssima explanação do Antigo Testamento. E ele, que estava ali para ser julgado, é quem vai condenar o sumo sacerdote e os principais dos judeus por rebelarem-se contra o Espírito de Deus, na violenta execução a que levaram Jesus e na perseguição que continuavam contra a Igreja Católica: "Homens de dura cerviz, e de incircuncisos corações e ouvidos! Vós sempre resistis ao Espírito Santo. Como procederam vossos pais, também procedeis vós! A qual dos Profetas vossos pais não perseguiram? Mataram aqueles que prediziam a Vinda do Justo, do Qual agora vós tendes sido traidores e homicidas! Vós que recebestes a Lei pelo ministério dos anjos, e não a guardastes..." At 7,51-53

    A reação do Sinédrio, então, foi furiosa: "Ao ouvir tais palavras, esbravejaram de raiva e contra ele rangiam os dentes. Mas, cheio do Espírito Santo, Estêvão fitou o Céu e viu a Glória de Deus, e Jesus de pé, à direita de Deus: 'Eis que vejo, disse ele, os Céus abertos e o Filho do Homem, de pé, à direita de Deus.'" At 7,54-56

    E lançaram mão da mais extrema punição, depositando seus mantos junto àquele que viria a ser São Paulo: "Levantaram, então, um grande clamor, taparam os ouvidos e todos juntos atiraram-se furiosos contra ele. Lançaram-no fora da cidade e começaram a apedrejá-lo. As testemunhas depuseram seus mantos aos pés de um moço chamado Saulo." At 7,58

    Santo Estevão, no entanto, tinha virtude da fortaleza, e em seus últimos momentos não hesitou em seguir Jesus em Seu Sacrifício e palavras, entregando-se, porém, a Ele mesmo, não ao Pai, o que é mais uma prova da divindade de Jesus: "E apedrejavam Estêvão, que rezava e dizia: 'Senhor Jesus, recebe meu espírito.' Posto de joelhos, exclamou em alta voz: 'Senhor, não lhes leves em conta este pecado...' A estas palavras, expirou." At 7,59-60

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Natal de Jesus

 

    A data do Nascimento de Nosso Senhor é dada pelo dia da concepção de São João Batista, apontado no Evangelho Segundo São Lucas. São Zacarias, pai do Batista, era sacerdote da classe de Abias, a oitava dentre as 24 (cf. 1 Cro 24,10), e por estes tempos servia no Templo de Jerusalém na última semana de setembro. E, logo no primeiro dia, deu-se um marcante acontecimento: "Nos tempos de Herodes, rei de Judeia, houve um sacerdote por nome Zacarias, da classe de Abias... Ora, ao exercer Zacarias diante de Deus as funções de sacerdote, na ordem de sua classe... Apareceu-lhe, então, um anjo do Senhor, em pé, à direita do Altar do incenso. Vendo-o, Zacarias ficou perturbado e o temor assaltou-o. Mas o anjo disse-lhe: 'Não temas, Zacarias, porque tua oração foi ouvida: Isabel, tua mulher, dá-te-á um filho, e tu chamá-lo-ás João.'" Lc 1,5.8.11-13

    E alguns versículos depois, este evangelista registrou a Anunciação do Arcanjo São Gabriel havia seis meses deste fato, ou seja, no primeiro dia da última semana de março, de onde se afere que Jesus nasceu no início da última semana de dezembro: "No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade de Galileia, chamada Nazaré, a uma Virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi, e o nome da virgem era Maria." Lc 1,26-27

    A chegada do Salvador entre nós, portanto, neste grandioso dia que para sempre marcou a humanidade, foi contada assim no Evangelho Segundo São Mateus: "Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, Sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo. José, seu esposo, que era homem justo, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente. Enquanto assim pensava, eis que em sonho lhe apareceu um anjo do Senhor e lhe disse: 'José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois Aquele que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho, a Quem porás o Nome de Jesus, porque Ele salvará Seu povo de seus pecados.'" Mt 1,18-21

    E esta é a leitura do Amado Médico: "Naqueles tempos veio um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda Terra. Este recenseamento foi feito antes do governo de Quirino em Síria. Todos iam alistar-se, cada um em sua cidade. José também subiu de Galileia, da cidade de Nazaré, a Judeia, à cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, para se alistar com sua esposa Maria, que estava grávida. Estando eles ali, completaram-se os dias dela. E deu à luz Seu Filho primogênito, e, envolvendo-O em faixas, reclinou-O num presépio, porque não havia lugar para eles na sala." Lc 2,1-7

    Foi o Livro do Profeta Isaías que anunciou, 700 anos antes, que Nosso Salvador nasceria de uma Virgem: "Ouvi, casa de Davi: não vos basta fatigar a paciência dos homens? Também pretendeis cansar Meu Deus? Por isso, o próprio Senhor dá-vos-á um sinal: uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho, e chamá-Lo-á Deus Conosco." Is 7,13-14

    E como predito por Deus Pai através do rei Davi no Livro de Salmos, a Majestade de Jesus é divina, portanto eterna: "Desde Sião, o Senhor estenderá Teu poderoso cetro. 'Dominarás', disse Ele, 'até em meio a Teus inimigos. No dia de Teu Nascimento, já possuis a realeza no esplendor da santidade. Semelhante ao orvalho, Eu gerei-Te antes da aurora.'" Sl 109,2-3

    Seu Virginal Nascimento igualmente foi prescrito por Davi, que cantou estas palavras de Jesus a Deus Pai: "Sim, fostes Vós que Me tirastes das entranhas de Minha mãe, e, seguro, Me fizestes repousar em seu seio. Fui-Vos entregue desde Meu nascer, desde o ventre de Minha mãe Vós sois Meu Deus." Sl 21,9-11

    Ademais, a Carta de São Paulo aos Gálatas fez uma belíssima síntese do que esse glorioso momento representou, dizendo do tempo de Deus, da submissão de Jesus, do Antigo Testamento e de nossa condição de filhos adotivos do Pai (cf. Rm 8,15): "Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, que nasceu de uma mulher e submetido a uma lei, a fim de remir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos Sua adoção." Gl 4,4-5

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

"Cantai ao Senhor"

    Bíblia é repleta de menções ao uso da música como forma de manifestação de  e culto a Deus. Logo depois de cruzarem o Mar Vermelho, por exemplo, Moisés e os israelitas cantaram para comemorar o fim da escravidão em Egito, uma dádiva que Deus acabava de conceder-lhes, como lemos no Livro de Êxodo: "Então, em honra ao Senhor, Moisés e os israelitas entoaram o seguinte cântico:

'Eu cantarei ao Senhor porque Se vestiu de Glória.
Ele lançou ao mar o cavalo e o cavaleiro.
O Senhor é Minha força e Meu canto, a Ele devo a Salvação.
Ele é Meu Deus, e glorifico-O,
o Deus de meu pai, e exalto-O.
O Senhor é um guerreiro, Javé é Seu Nome!'"

Êx 15,1-3

    Deus mesmo ditou um cântico a Moisés, no Livro de Deuteronômio, para que o povo de Israel não se escusasse de suas obrigações de louvá-Lo: "E agora, escrevei este cântico, ensinai-o aos israelitas e ponde-o em seus lábios, para que Me sirva de testemunho contra eles. Nesse mesmo dia, Moisés redigiu o cântico e o ensinou aos israelitas:

'Dá ouvidos, ó Céu, que Eu vou falar.
Ouve, ó Terra, as palavras de Minha boca!
Desça como chuva Minha Doutrina,
Minha Palavra espalhe-se como orvalho,
como chuvisco sobre a relva que viceja
e aguaceiro sobre a grama verdejante.
E agora, vede bem: Eu, sou Eu,
e fora de Mim não há outro Deus!
Sou Eu que mato e faço viver,
sou Eu que firo e torno a curar
e de Minha mão ninguém se livra.'"

Dt 31,19.22;32,1-3.39

    E o Profeta Eliseu, no Segundo Livro de Reis, pediu o som da harpa para proferir os conselhos de Deus a Josafá, rei de Judá: "'Mas agora me trazei um tocador de harpa.' Apenas fez o tocador vibrar as cordas, veio a mão do Senhor sobre Eliseu, e ele disse: 'Eis o que diz o Senhor...'" 2 Rs 3,15

    Ao entrar com a Arca da Aliança no pavilhão, que havia construído para oferecer sacrifícios a Deus, o rei Davi encarregou o levita, salmista e Profeta Asaf de fazer celebrações com cânticos de Glória. Está no Primeiro Livro de Crônicas: "Celebrai o Senhor, aclamai Seu Nome, apregoai entre as nações Suas obras. Cantai-Lhe hinos e cânticos, anunciai todas Suas maravilhas. Cantai ao Senhor, ó terra inteira, anunciai cada dia a Salvação que Ele nos trouxe." 1 Cr 16,8-9.23

    O Livro de Salmos é feito de hinos, vários deles do rei Davi, nos quais é fácil perceber seu jovial espírito e alegria. Em geral, porque também proféticos, esses versos ecoaram em várias passagens das Escrituras e ainda ecoam em inúmeras canções e orações, como nesse cujo sagrado autor não foi identificado, e para todas ocasiões:

"Cântico para o dia de sábado.
'É bom louvar ao Senhor
e cantar salmos a Vosso Nome, ó Altíssimo.
Proclamar, de manhã, Vossa Misericórdia,
e, durante a noite, Vossa fidelidade,
com a harpa de dez cordas e com a lira,
com cânticos ao som da cítara,
pois Vós me alegrais, Senhor, com Vossos feitos,
exulto com as obras de Vossas mãos.'"

Sl 91,1-5

    O Livro de Cântico dos Cânticos, outro sinal da Graça, é um hino ao amor vivido por um casal, cujo amado por vezes é o próprio Deus, ou o rei Salomão, embora saibamos que nem todos tenham sido escrito por ele. De toda forma, o Livro é atribuído a ele: "O mais belo dos Cânticos de Salomão." Ct 1,1

    Ora, os Céus revelados no Livro de Apocalipse de São João são embalados por enlevantes hinos e coros, em grandiosos momentos: "Quando recebeu o Livro, os quatro seres e os vinte e quatro anciãos (todos anjos!) prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um uma cítara e taças de ouro cheias de incenso (que são as orações dos Santos). Cantavam um novo cântico, dizendo:

'Tu és digno de receber o Livro
e de abrir-lhe os selos,
porque foste imolado e, por Teu Sangue,
resgataste para Deus
homens de toda tribo, língua, povo e raça.
E deles fizeste, para Nosso Deus,
e eles reinam sobre a Terra.'"

Ap 5,8-10

    Jesus também instruiu os Apóstolos no ofício de cantar os Salmos. E foi o que eles fizeram logo após a Santa Ceia, na noite em que Ele ia ser entregue, na leitura do Evangelho segundo São Marcos: "Terminado o canto dos Salmos (Sl 113 a 117), saíram para o monte das Oliveiras." Mc 14,26

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Detalhes sobre Jesus

    Apesar de tudo que é divulgado, muitos e importantes detalhes da vida de Jesus acabam passando despercebidos. Por exemplo, no Evangelho Segundo São João, Ele apresentou-Se como Aquele que por Si mesmo realizará a Ressurreição dos Mortos, sem mencionar o Pai: "Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue tem a Vida Eterna. E Eu ressuscitá-lo-ei no Último Dia." Jo 6,54

    Prometeu total proteção às ovelhas sob Graça: "... e ninguém as roubará de Minha mão." Jo 10,28b

    Ele demonstrou Onisciência logo na primeira Páscoa em vida pública na Cidade Santa: "Mas Jesus mesmo não Se fiava neles, porque a todos conhecia. Ele não necessitava que dessem testemunho de homem algum, pois bem sabia o que havia no homem." Jo 2,24-25

    Ou ainda o poder de clarividência, visto no primeiro encontro com São Bartolomeu: "Porque Eu te disse que te vi debaixo da figueira, crês? Verás coisas maiores que esta!" Jo 1,50

    Por várias vezes foi bem explícito, revelando-Se absoluto, ou seja, o próprio Deus, como disse aos Apóstolos em despedida, momentos antes do início de Sua Paixão: "... sem Mim, nada podeis fazer." Jo 15,5

    Deu um claro aviso, em resposta aos fariseus, àqueles que esperam um reino de vanglória, no Evangelho Segundo São Lucas: "O Reino de Deus não virá de ostensivo modo. Nem se dirá: Ei-lo aqui; ou: Ei-lo ali. Pois o Reino de Deus já está em meio a vós." Lc 17,20-21

    E pela instauração da Santa Igreja Católica, Ele mesmo intensamente trabalhou por todo Israel, como vemos no Evangelho Segundo São Mateus: "Jesus percorria todas cidades e aldeias ensinando em suas sinagogas e pregando o Evangelho do Reino de Deus, enquanto curava toda sorte de doenças e enfermidades." Mt 9,35

    Esteve no extremo norte, nas proximidades do monte Hermon, nascentes do Jordão, onde foi identificado por São Pedro como o Cristo: "Chegando ao território de Cesareia de Filipe, Jesus perguntou a Seus discípulos: 'No dizer do povo, quem é o Filho do Homem?'" Mt 16,13

    Foi para os mais isolados lugares, , como na primeira vez em que multiplicou pães e peixes: "Ora, o dia começava a declinar e os Doze foram dizer-Lhe: 'Despede as turbas, para que vão pelas vilas e sítios da vizinhança e procurem alimento e hospedagem, porque aqui estamos num deserto lugar.'" Lc 9,12

    Os ermos igualmente eram usados em Suas práticas de oração, como desde o segundo dia na casa de São Pedro, ainda em Cafarnaum, no Evangelho Segundo São Marcos: "De manhã, tendo-Se levantado muito antes do amanhecer, Ele saiu e foi para um deserto lugar, e ali Se pôs em oração." Mc 1,35

    Ele e os Apóstolos ficavam até mesmo sem comer, como aconteceu após a convocação dos Doze: "Em seguida, dirigiram-se a uma casa. De novo afluiu aí tanta gente, que nem podiam tomar alimento." Mc 3,20

    Era assediado por verdadeiros turbilhões: "Enquanto isso, a multidão tinha afluído aos milhares em torno de Jesus, de modo que se atropelavam uns aos outros." Lc 12,1

    Pois D'Ele saia força e o povo sabia: "Todo povo procurava tocá-Lo, pois d'Ele saía uma força que a todos curava." Lc 6,19

    Até fariseus zelavam por Sua vida: "No mesmo dia chegaram alguns dos fariseus, dizendo a Jesus: 'Sai e vai-Te daqui, porque Herodes quer matar-Te.'" Lc 13,31

    Um deles, além de muito importante, tornou-se Seu seguidor (cf. Jo 7,50; 19,39): "Havia um homem entre os fariseus, chamado Nicodemos, príncipe dos judeus. Este foi ter com Jesus, de noite, e disse-lhe: 'Rabi, sabemos que és um Mestre vindo de Deus. Ninguém pode fazer esses milagres que fazes, se Deus não estiver com ele.'" Jo 3,1-2

    E desde o início já era acompanhado por São Tiago Menor e São Judas Tadeu, chamados de 'Seus irmãos' e que viriam a ser Seus Apóstolos, além da Santíssima Virgem, que sempre esteve a Seu lado: "Depois disso, desceu para Cafarnaum, com Sua mãe, Seus irmãos e Seus discípulos. E ali só demoraram poucos dias." Jo 2,12  

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

O Mistério de Cristo

    Antes da Ressurreição e da Ascensão ao Céu, o mais grandioso fenômeno realizado por Jesus diante dos Apóstolos foi a Transfiguração, quando plenamente lhes manifestou Sua divina condição. Por isso, pediu que aguardassem o devido tempo para começar a divulgá-la. O Evangelho Segundo São Mateus assim narrou, contando do dia em que Jesus foi identificado por São Pedro como o Cristo: "Seis dias depois, Consigo Jesus tomou Pedro, Tiago e João, seu irmão, e à parte conduziu-os a uma alta montanha. Lá Se transfigurou em presença deles: Seu rosto brilhou como o sol, Suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que Moisés e Elias apareceram, conversando com Ele. E quando desciam, Jesus fez-lhes esta proibição: 'Não conteis a ninguém o que vistes, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos.'" Mt 17,2-3.9

    Mas mesmo tendo esperado o oportuno momento, não foi fácil divulgar tão desconcertante Revelação. Num suspiro, a Carta de São Paulo aos Colossenses fala dos esforços que ele fazia para anunciar a Encarnação de Cristo àqueles que não o conheciam. Sem dúvida, o maior Mistério de Deus: "Tudo sofro para que seus corações sejam reconfortados, e que, estreitamente unidos pelo amor, sejam enriquecidos de uma plenitude de inteligência, para conhecerem o Mistério de Deus, isto é, Cristo, no Qual estão escondidos todos tesouros da Sabedoria e da ciência." Cl 2,2-3

    E sabendo que tinha em mãos uma tarefa que ia muito além de suas capacidades, humildemente pedia por orações: "Também rezai por nós. Pedi a Deus que dê livre curso a nossa palavra, para que possamos anunciar o Mistério de Cristo." Cl 4,3

    Desta forma, o Evangelho, tanto quanto o próprio Cristo, é uma manifestação de divinos mistérios, como a Carta de São Paulo aos Efésios afirma ao final: "E também rezai por mim, para que me seja dado corajosamente anunciar o mistério do Evangelho..." Ef 6,19

    Jesus mesmo havia dito que só revelaria o Pai a quem Ele quisesse, de onde se entende que Ele O revela de pessoa em pessoa. É do Evangelho Segundo São Lucas: "Ninguém conhece quem é o Filho, senão o Pai, nem quem é o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho quiser revelá-Lo." Lc 10,22

    Em igual sentido, a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios afirma que só se pode dar conta de que Jesus é Deus com o auxílio da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade: "... ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, senão sob a ação do Espírito Santo." 1 Cor 12,3

    Nosso Salvador, portanto, promete manifestar-Se de um em um àqueles que O amam, falando em particular a cada coração. Foi pouco depois da Santa Ceia: "Aquele que tem Meus Mandamentos e os guarda, esse é que Me ama. E aquele que Me ama será amado por Meu Pai, e Eu amá-lo-ei e a ele manifestar-Me-ei." Jo 14,21

    Nessa ocasião, movido por sinceridade, São Judas Tadeu perguntou o porquê de Suas manifestações pessoais: "Pergunta-Lhe Judas, não o Iscariotes: 'Senhor, por que razão hás de manifestar-Te a nós e não ao mundo?'" Jo 14,22

    Mas Ele tão somente respondeu garantindo vir com o Pai morar no coração de quem O Ama, ou seja, sem fazer menção, nessa resposta, à Parusia, Sua Definitiva Volta: "Respondeu-lhe Jesus: 'Se alguém Me ama, guardará Minha Palavra e Meu Pai amá-lo-á. E Nós viremos a ele e nele faremos Nossa morada.'" Jo 14,23

    Por vezes, de fato, deixou de fora a multidão: "Os discípulos aproximaram-Se d'Ele, então, para Lhe dizer: 'Por que lhes falas em parábolas?' Respondeu Jesus: 'Porque a vós é dado compreender os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não.'" Mt 13,10-11

    Também quando se aproximava Seu Sacrifício e tinha que Se dedicar à formação dos Apóstolos, como o Evangelho Segundo São Marcos apontou: "Tendo partido dali, atravessaram a Galileia. Não queria, porém, que ninguém o soubesse. E ensinava a Seus discípulos..." Mc 9,30-31a

    E já havia dito ainda na sinagoga de Cafarnaum: "Ninguém pode vir a Mim se o Pai, que Me enviou, não o atrair." Jo 6,44a